08/08/2023

O cavalo de Freud

És o que esqueces.

Por isso podes empinar-te

como um cavalo dourado sobre a planície

e correr depois errante por ela fora.


Talvez esse espaço generoso

seja afinal o quintal atravancado 

onde o  vizinho do rés-do-chão

guarda também  tudo o esqueceu.


Talvez galopes apenas o desejo de galopar

e o cavalo seja de plástico branco,

deslizando a custo sobre quatro rodas pequenas.


"Pouco importa", dizes para ti mesmo, 

saturado da incapacidade que a vigília

não pára de te lembrar. 


"Diomède dévoré par ses chevaux" - George Moreau (1826-98)




3 comentários:

Jaime Portela disse...

Como não sou filósofo, não sei se somos o que esquecemos ou que lembramos.
Em qualquer caso, apesar da minha ignorância, penso que somos uma conjugação das duas condições.
Mas gostei do poema, é profundo e tem que ser lido à lupa.
Resumindo, é excelente.
Boa semana, caro amigo Luís.
Um abraço.

Graça Pires disse...

Os equívocos da vida são raízes enredadas nos artifícios da idade. Sentimo-nos da estirpe dos aventureiros ou dos fugitivos e vamos a trote num cavalo imaginário a galopar pela planície imaginária, solitários e envoltos na miragem que desejamos.
Não sei se comentei ao lado, porque o seu poema é uma imensa reflexão.
Não gosto de Freud.
Desejo que esteja bem.
Uma boa semana.
Um beijo.

solfirmino disse...

Maravilhoso poema que explora complexa interação entre a memória, o desejo, a liberdade e as limitações humanas. Reflete sobre a psicologia humana e a busca por compreender a si mesmo e o mundo ao redor. Esse poema dá um ótimo ensaio de pelo menos seis folhas... Parabéns, amigo, muito profunda sua reflexão.
Um beijo