Passa, leve, o rio. As casas escadeiam a encosta das margens até ao horizonte. Ao meio, uma ponte, ao que parece romana, encavalita gentes e veículos. Intrépida diante dos tempos e das violências que estes trazem, e levam depois, ali está ela, memória surda e muda, à espera de que os seus intérpretes consigam escutá-la, imaginar as legiões romanas ou a artilharia bonapartista atravessando-a.
Por trás, o balneário romano, onde D. Afonso Henriques terá recuperado de uma fratura na perna, sequela de uma batalha em Badajoz.
As casas alinham-se como rostos. Olhando o Vouga, abrem-se as janelas como pálpebras e, por trás delas, erguem-se humanos como pupilas. A população, na sua maioria aparentemente sazonal, arrasta-se logo pela manhã das extremidades para o centro da vila. Vem à procura de uma vida social que surge timidamente nas esplanadas dos cafés.
O produto que mais vende por aqui é uma expectativa. Primeiro, a da saúde; depois, a da vida.
Talvez por isso o som de fundo seja o rio a desfolhar-se nas pedras, distribuídas no leito como teclas graníticas de um xilofone.
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