09/07/2026

Metamorfose

Deito-me na cama, fecho os olhos com força, enrolo-me em mim. Vêm-me à memória aquelas lapas que encontrava na foz do rio Mira, na maré baixa, encrostadas na rocha viva.

Posso, afinal, dizer, como elas: dificilmente me tiram daqui. Casca rija por cima, a velha crosta da Terra por debaixo. Tão segura ilusão...

As ondas são lençóis que sobem ou descem consoante as marés. Eu, molusco de mucosa húmida, informe, recolhendo-me e encolhendo-me diante do olhar guloso dos outros; distendendo-me depois, já morto, dentro da panela, com molhinho de alho e coentros a temperar-me o corpo, desalmado, porém.

1 comentário:

carlos perrotti disse...

Conmovedora escena, destreza para hacer que se vea.
Abrazo hasta vos, Poeta!!