pela fresta dos cortinados.
A cidade aproxima-se
como uma automotora
num túnel asmático.
As gaivotas pairam,
como abutres sobrevoando
os restos da noite.
O dia começa —
embora o passado continue aqui,
em analogias perversas.
Antigamente aquilo.
Agora isto.
Para me aliviar digo a mim mesmo:
é natural que assim penses.
Filtraste a memória,
recolheste apenas
o bem que ela guardava.
O passado é um veneno
a espalhar-se pelo sangue
enquanto ponderamos
os prós e os contras
da empresa
em que nos tornámos.
Quando o tempo
se esquece momentaneamente de nós
e nos lembramos
momentaneamente dele,
tudo isto acontece
porque a luz
que passa pelos cortinados
apenas nos deixa entrever
coisas que não vemos,
nem vimos nunca sequer.
2 comentários:
Um poema intenso e profundo. Gostei de ler e reler, meu Amigo Luís.
Tudo de bom para si.
Um beijo.
Poemazo les decimos por estos pagos, por lo grandioso de su concepción y la destreza para poner tanto sentido y sentimiento en palabras...
Abrazo admirado, amigo (Ya estás en el Gaterío prestigiándolo)
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