06/03/2026

Poema a partir da nossa cama

A luz entra
pela fresta dos cortinados.

A cidade aproxima-se
como uma automotora
num túnel asmático.

As gaivotas pairam,
como abutres sobrevoando
os restos da noite.

O dia começa —
embora o passado continue aqui,
em analogias perversas.

Antigamente aquilo.

Agora isto.

Para me aliviar digo a mim mesmo:
é natural que assim penses.
Filtraste a memória,
recolheste apenas
o bem que ela guardava.

O passado é um veneno
a espalhar-se pelo sangue
enquanto ponderamos
os prós e os contras
da empresa
em que nos tornámos.

Quando o tempo
se esquece momentaneamente de nós
e nos lembramos
momentaneamente dele,

tudo isto acontece

porque a luz
que passa pelos cortinados
apenas nos deixa entrever
coisas que não vemos,
nem vimos nunca sequer.

2 comentários:

Graça Pires disse...

Um poema intenso e profundo. Gostei de ler e reler, meu Amigo Luís.
Tudo de bom para si.
Um beijo.

carlos perrotti disse...

Poemazo les decimos por estos pagos, por lo grandioso de su concepción y la destreza para poner tanto sentido y sentimiento en palabras...
Abrazo admirado, amigo (Ya estás en el Gaterío prestigiándolo)