12/01/2026

Vate 2026

Disseram-me entre dentes
ser a flor do cardo,
dente-de-leão,
boca aberta
onde o amestrador metia a cabeça
entre os dentes da fera,
disseram-me...
e o público,
gente entre gente,
roda-viva em redor da carne viva, 
aplaudia
naquele tempo
em que cheirava
à juba do leão,
aos excrementos dos elefantes
que alguém depois limpava,
à pólvora seca do homem-bala
que subia para cair às mãos
de quatro acrobatas chineses,
afinal vindos de Vendas Novas.

Foi anos antes ou depois da morte, Herberto Hélder?
Foi antes ou depois
 da máquina de metralhar electrões na vidraça?
Afinal, o que importa quando já nada importa.

Digam-me apenas
que os lugres voltam sempre
às grandes charnecas,
com os seus piares agudos e solitários,
vindos da Escandinávia.

É horrivelmente libertador
saber que podes escrever
o que quiseres,
porque ninguém vai ler nada,
ninguém vai querer saber.
Claro que foi antes da morte,
como poderia ter sido de outra forma.

2 comentários:

Filicasto disse...

Belo poema

Filicasto disse...

Belo poema