Um quarto para as três da tarde, o comboio passa; não o vejo, mas escuto o seu rumor elétrico. O dia está cinzento; estou dentro da torre de Montaigne, do castelo de Hölderlin, nesses lugares onde podemos refugiar-nos do mundo — um luxo, afinal. Talvez por isso eles tenham ali permanecido meses ou anos, e eu, apenas uma quarta-feira chuvosa. Já não é mau, penso para mim mesmo, pequeno vencedor do tempo entre os meus camaradas de condição social.
Desde muito jovem, sempre me foi apetecível a condição de fantasma, invisível, translúcido, de preferência com asas, para me poder sentar a observar os mortais na borda dos prédios, como os anjos berlinenses de Win Wenders. Assim, poderia contemplar os outros — os contemporâneos e os antigos — através dos seus vestígios artísticos, de preferência; a linguagem da arte é o melhor da humanidade. Aumenta a realidade, modela o pensamento em canções, a filosofia em poemas.
O que nos foi deixado para ler, ver e ouvir não tem fim, e isso agrada-me. Isso faz-me procurar, com as minhas poucas disponibilidades económicas e intelectuais, o que, de certeza, os outros nos quiseram deixar, porque essa é foi vontade, mais ou menos inconsciente, de quem se vê sub umbra mortis: vencer o esquecimento, discursar mais um pouco no púlpito da cidade.
Sem comentários:
Enviar um comentário