22/01/2026

A bússola

Sempre que posso, venho embuscar-me num estacionamento junto à estrada. Escrevo dentro do carro. O sol espreita por detrás do monte e reajusta a minha bússola interior. Refaço na alma os pontos cardeais.

O monte está igual há décadas — é a fotografia dos avós pousada numa cómoda ao sábado à tarde. A nostalgia da natureza invade-me: ferida que não sara.

Preciso do campo mais do que nunca. O inverno ensaia a sua dança entre o frio e o sol — como nenhuma estação sabe fazê-lo. A pele oscila entre o arrepio e o raro calor de uma manhã iluminada.

As ervas, as canas, os arbustos silvestres — tudo aqui ainda mexe. Jóias que subsistem apesar do nosso desejo de conquistar, controlar, pôr a render.

Atrás de mim, carros passam. Ninguém parece perguntar pelo sentido da vida; seguem com a vontade animal da sobrevivência. Pode ser que seja melhor assim, aceitar sem questionar, como dizem os pseudoestóicos. Não sei. Talvez fosse melhor lutar — ainda que parando.

Amadora, 22 de janeiro de 2026

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