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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Um certo caos

A sala de espera estava pintada com o mesmo azul cobalto
daquele Tejo encrespado dos dias encobertos.

Os números das senhas de espera saltavam urgentes e vazios
sem que ninguém os reclamasse.

Um telemóvel tocou e uma senhora atendeu e perguntou:
"Leste o que escreveste ?"

Chamaram entretanto a minha senha. Chegara a minha vez.
A minha vez de quê?


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

(in)adaptação

Henrique, conhecido apenas por mim como o bom gigante, enviou-me uma mensagem alertando-me para a dificuldade que passam  alguns *Mbunas durante a adaptação  às condições dos novos aquários. A acidez e a dureza da água atingem valores aos quais alguns não resistem, escreveu-me ele.

*Mbunas - Peixe das rochas, em idioma Tonga, falado no norte lago Malawi, Africa.

Preâmbulo da "arte pobre"

O Bruno alertou-me para as contingências da arte pobre, onde um convicto artista,Piero Manzoni, desta corrente, enlatou próprios excrementos, convencendo depois algum publico de que se tratava de uma obra prima.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Ansiolítico

Esta é uma poesia mansa, a meia-idade, a luz possível num dia chuvoso. É um chá com pouco mel que se retarda na garganta ressequida do trovador, enquanto  procura a melodia na indiscriminada pauta do bocejo.

Esta é uma cantiga demasiado interior, até mesmo para aqueles que nos escutam pelos olhos e se acumulam na casa velha, deitados sobre o pó que, em ascese, levita.

Esta é a poesia manuscrita numa margem carcomida, quando a tarde cai de costas e arranca o cenário onde as estrelas foram cosidas  por umavelha costureira.




Nota: Encontrei dispersos por muitos cadernos de apontamentos iniciados em 2016, um conjunto de poemas que começo hoje a publicar aqui.
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