E, no entanto, o mistério estava ali, debaixo dos nossos pés.
16/10/2026
Debaixo dos nossos pés
O terrível não é quando os anjos surgem na sala, como me assombrou Rilke na sua primeira Elegia. O terrível é passarmos por um carreiro de formigas, na charneca seca, sem nos perguntarmos o que pensarão elas quando se cruzam e confidenciam os seus pequenos segredos, com as anteninhas a dar a dar.
14/10/2026
Se fosse hoje a última vez
Se fosse hoje a última vez, ninguém o levaria a mal, ou se espantaria sequer. Porque, apesar de ter havido tantas vezes, alguma teria de ser a última.
Houve vezes em que vesti a gabardina azul, em que vimos girar o nosso filho naquele carrossel, em Lagos, ou mesmo quando visitámos a Isla Mágica, em Sevilha.
Houve as vezes em que amanheceu e anoiteceu, enquanto pescávamos serenamente.
Haverá sempre a vez das galáxias se expandirem e das formigas de asa saírem dos formigueiros.
Se fosse hoje a última vez, porque alguém desligou a máquina, ou apenas porque o dedo escorregou no gatilho, o poeta era uma vez.
11/10/2026
A doença do azul
Cinzento, o céu promete chuva. Visto daqui, parece que há uma só nuvem a cobrir toda a Reboleira.
Ruy Belo era triste porque se lembrava da morte. O Nobre também, porque, de uma forma ou de outra, estava a morrer. Eu estou triste porque nasci mesmo assim: melancólico e sorumbático.
Contudo, quem me oiça pode achar-me até divertido, quanto baste. Alguns até dizem que tenho sentido de humor, sabe-se lá porquê. Acho que, se tinha alguma dessas qualidades, as fui perdendo com o tempo, nessa desesperança para a qual a vida nos atira, sem apelo nem recurso, a não ser o esquecimento.
Mas, se esqueces, deixas de ser. É uma espécie de morte prematura.
Vai chover, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até gosto de ver chover. Sinto que, finalmente, a minha temperatura, o meu modo de ser, se sintoniza com o mundo exterior.
No horizonte, porém, vejo uma aberta. O azul vai conquistando o cinzento como uma doença.
Vou ter de sorrir. Oh, merda!
Amadora, 11 de Outubro de 2026
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