11/10/2026

A doença do azul

Cinzento, o céu promete chuva. Visto daqui, parece que há uma só nuvem a cobrir toda a Reboleira.

Ruy Belo era triste porque se lembrava da morte. O Nobre também, porque, de uma forma ou de outra, estava a morrer. Eu estou triste porque nasci mesmo assim: melancólico e sorumbático.

Contudo, quem me oiça pode achar-me até divertido, quanto baste. Alguns até dizem que tenho sentido de humor, sabe-se lá porquê. Acho que, se tinha alguma dessas qualidades, as fui perdendo com o tempo, nessa desesperança para a qual a vida nos atira, sem apelo nem recurso, a não ser o esquecimento. 

Mas, se esqueces, deixas de ser. É uma espécie de morte prematura.

Vai chover, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até gosto de ver chover. Sinto que, finalmente, a minha temperatura, o meu modo de ser, se sintoniza com o mundo exterior.

No horizonte, porém, vejo uma aberta. O azul vai conquistando o cinzento como uma doença.

Vou ter de sorrir. Oh, merda!


Amadora, 11 de Outubro de 2026

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