30/10/2026

Do corpo à memória

Há por aqui um perfume de mulher,
tesão capaz de erguer
todos os estandartes da centúria,
fome a haver de ternura,
Verbo feito carne
como nas Escrituras.

E depois passa.
Tudo passa.

Esquece-se o cheiro salgado
que tinham as raparigas na juventude,
quando saíam do mar,
o seu rasto luminoso,
levando os rapazes
para trás dos pavilhões
da escola secundária.

Fecham-se os olhos.
Dilatam-se as narinas,
abre-se a boca,
como fazem os gatos,
que também sabem cheirar
pelo palato.

E, com sorte,
desvela-se ainda um aroma
na brisa primaveril
deste perfume de outono:

fruto caído
à sombra do castanheiro,
que se finge semente
e semente será,
talvez.

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