08/05/2026

O mendigo

Ad memorium António 


A manhã é a angústia dos poetas,
a sua voz a desaparecer,
quase pronta para sair para a guerra.

A manhã é querer viver
e morrer ao mesmo tempo,
indefinição por desencriptar,
como um novelo deixado ao gato,
leve toque de paixão,
curiosidade animal
à beira daquele precipício
que horas abrem nas agendas.

— Já marcaste férias? — pergunta-me ela.

O mundo inteiro são férias,
bem vistas as coisas.
Podíamos voar de cidade em cidade
exatamente no dia
em que cada uma delas
fecha para férias.

Os olhos do gato
são prazer e mistério.
O gato é um mendigo
que trouxemos para casa.
Arredio às ordens,
viciado nos hábitos da rua,
na liberdade austera
de não ter nada,
apenas tempo a haver.

Sou o teu mendigo disfarçado.
Espero que não te sintas
assim levemente enganada.
Fico sempre com a sensação
de que a liberdade
é grande demais
para esta sala de estar apertada.

Amadora, 8 de Maio de 2026

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom, mais uma vez. Os gatos são nossos amigos, nós é que não damos por isso, porque andamos distraídos.

Júlio Pinheiro disse...

Excelente. Mais um para degustar.
Aguarda-se uma compilação.