03/05/2026

A caderneta dos cromos



Desfolhar a caderneta dos cromos,
devolve-me o cheiro das gaiolas,
aquela camisa de alças verdes que levava para o treino,
o odor forte da gasolina
com que o meu pai lavava as máquinas de escrever.

O rumor do aspirador aos sábados era a minha mãe
a limpar a casa; depois, a cera,
a enceradora bordeaux da Hoover.

Sábado era bom:
a mãe limpava e cuidava;
o pai levava-me a jogar futebol
com os amigos para o Estádio Nacional.
Às vezes ia comigo o Rui,
tinha uma camisola amarela da Hertz,
aluguer de automóveis.
Era linda,
uma embaixada de sol
sobre o ervado tosco onde a bola rolava.

Sentia-me tão importante ali,
tão importante como qualquer jogador
ao entrar num jogo do Mundial.

Fecho a caderneta dos cromos
e tudo se apaga.

Uma golfada de vento entra pela janela,
leva os cheiros, leves como borboletas.
Apenas me reconforta pensar
que também hoje serão memórias vindouras,
mas naquele tempo
a morte ainda não estava lá.

Agora, vejo-a ao longe,
silhueta negra montada a cavalo.
Não consigo entender
se galopa
ou vem a passo
na minha direção.






4 comentários:

Graça Pires disse...

Eu nunca tive uma caderneta de cromos nem nunca fui com o meu pai ao futebol. Faltou-me muita coisa na minha infância devido às vicissitudes da vida. Fiquei a imaginar a sua caderneta e a desejar que fosse minha. Não se importa pois não?
Tudo de bom.
Um beijo.

Anónimo disse...

Obrigada! Que sortudos fomos com a nossa infância!

Júlio Pinheiro disse...

Muito bom. Transporta-nos até à tua
e nossa infância.
Também eu tive cadernetas de cromos. Era uma alegria quando os cromos não eram repetidos, e lá íamos nós (eu e o meu irmão) a correr colar na caderneta.

carlos perrotti disse...

El Poeta jamás deja de ser niño. Me encantó, amigo. Me provoca identificación!!