27/03/2026

O faquir do Restelo



Sentaste na cama de pregos,

como um faquir sufi recém-convertido,

à espera do autocarro.


Ali, ao sol,

deixas de sentir

a ilusão mendicante.


Os melros aproximam-se,

e até os cães se chegam, curiosos,

como se revisitassem Diógenes de Sinope

dentro da sua pipa,

séculos depois.


A vida continua em redor:

as pessoas partem para o trabalho,

tomam café

neste bairro chique da cidade.

E tu, pobre dos pobres,

semi-deitado nas escadas de pedra,

esperas o chamamento de Deus —

que por instantes confundes

com o lastro rugido de um avião

a atravessar o céu,

em direção a lugares

tão santos como este,

onde estendes as pernas

e comes um naco de pão.

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