Sentaste na cama de pregos,
como um faquir sufi recém-convertido,
à espera do autocarro.
Ali, ao sol,
deixas de sentir
a ilusão mendicante.
Os melros aproximam-se,
e até os cães se chegam, curiosos,
como se revisitassem Diógenes de Sinope
dentro da sua pipa,
séculos depois.
A vida continua em redor:
as pessoas partem para o trabalho,
tomam café
neste bairro chique da cidade.
E tu, pobre dos pobres,
semi-deitado nas escadas de pedra,
esperas o chamamento de Deus —
que por instantes confundes
com o lastro rugido de um avião
a atravessar o céu,
em direção a lugares
tão santos como este,
onde estendes as pernas
e comes um naco de pão.
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