12/02/2026

Mesmo assim, insistes em ver



Chove lá fora,

e pode ser a última vez;

mesmo assim, insistes em ver

as árvores quase gémeas

do outro lado da estrada,

as gotas correndo pelas vidraças,

a gata enrolada em si própria.

Do vento, nada.

Não há movimento aparente.

Apenas uma fogueira apagada,

restos de outono

que ficaram por apanhar

pelos serviços da câmara.


Ouves o ar a esfregar-se

nas tuas narinas,

as chaves do vizinho a rodar

no umbigo da porta.

Sons ínfimos e laterais,

sinais de gente.

Quando voltarão as andorinhas,

perguntas.

Que te importa isso,

se esta pode ser afinal

a única vez?

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