17/08/2023

Dos bloqueios literários



Às vezes, não sabemos como começar os poemas. Os dias são mais fáceis: começam sempre pela manhã. Silenciosas também, mas prometedoras.

O silêncio dos poemas é diferente. Se nascem calados, são quase nados-mortos. No mínimo, estrebucham alguns guinchos, tentando sem fé construir pequenas ermidas no alto da serra — daquelas que ninguém lá passa, a não ser na romaria anual.


O silêncio das manhãs promete mais. Há mesmo quem projete logo ali profícuas catedrais. Ainda que ao cair da noite tenham apenas, com quatro ou cinco tábuas mal pregadas, levantado um tosco confessionário, onde poderão deixar as culpas do dia para dormirem descansados.

2 comentários:

Ailime disse...

Boa tarde Luís,
Os poemas mais belos são aqueles que, quando o Poeta não tem as palavras soltas, nascem como rios e vão torneando as montanhas, como este que nasceu e se fez rio.
Gostei muito.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

Graça Pires disse...

Gosto da reflexão, meu Amigo Luís. As palavras. O silêncio. É como se vivêssemos na ânsia de agarrar o horizonte. O melhor é regressarmos aos sons primordiais, à raiz presa à terra onde encontramos o silêncio da seiva e o modo de alinhar as palavras inspiradas, em qualquer hora do dia.
Tudo de bom.
Um abraço.