17/05/2022

Ilusão

Desenhas identidades fáceis

no primeiro espelho da manhã.


Através de uma estampa barata

pendurada na parede entra o ar fresco

que se enleia de súbito ao pigmento

dos teus cabelos.


Perguntas-lhe três vezes 

e o espelho diz-te quem serás hoje,

recitando em versos brancos

o plano quieto dos deuses 

agora mesmo consagrados.


Juntas devagar as pálpebras das mãos;

sussurras uma cantiga só tua,

um credo imediato,

uma ladainha que alguém trouxe outrora

de uma aldeia que não conheces.


Procuras ainda uma fuga;

uma alucinação barata

apenas na margem permitida;


E quem te vê passar,

acredita até que possuis

um ténue arbítrio de vontade.

Amanhã, porém,

quando de novo acordares

serás outra vez uma ideia premeditada.

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