Quem vive nas casas baixas,
em ruelas antigas
do tempo das grandes guerras,
no fim do dia põe-se à janela.
É inevitável, como o pôr-de-sol.
Quem ali vive,
humilde e curvado pelos tetos,
sabe e sente
porque há gente, ou não,
àquela hora, naquela semana
ou naquela estação do ano até.
Sabe também quem nasceu, morreu,
ou mesmo sobreviveu.
E se arrasta agora por cansaço ou prudência.
Quem mora nas casas baixas
conta as vezes que o carteiro ainda passa,
quando de facto a ambulância chega,
ou que namorados se enlaçam agora
como videiras no castiço canto das traseiras.
Às vezes imagino que quem lá mora
são anjos curiosos descidos à terra rasa,
que ali esperam, atentos aos pombos,
aos gatos, às ervas que ousaram
nascer entre as pedras da calçada.
Se um dia passares pelas casas baixas,
lembra-te disto.
E depois segue como se nada fosse.
As casas baixas foram feitas para não pensarmos nelas.
Só por isso, ainda lá estão.
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