18/04/2022

Passaram uns pelos outros

Passaram uns pelos outros,

ninguém disse nada.

E todos sabiam

que o gato morrera na soleira da porta.

E todos entenderam em segredo este prenuncio

que silenciou o dia,

que o virou do avesso

para que a notícia não confrontasse o sol,

graça primeira de Deus verdadeiro.


Quando no zénite 

se anunciou costumeira

a sirene dos bombeiros 

— única lei que a cidade cumpre—

a tarde esqueceu a manhã

numa ínfima Páscoa 

celebrada por insetos

e ervas, que à revelia da autarquia,

cresceram sobre o jardim das palmeiras.


Passaram uns pelos outros,

mas ninguém sabia soldar todos os pensamentos do dia,

como  fazia o homem  acocorado no deserto,

enquanto esperava abandonado e sereno

a mão que o guiaria.



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