Passaram uns pelos outros,
ninguém disse nada.
E todos sabiam
que o gato morrera na soleira da porta.
E todos entenderam em segredo este prenuncio
que silenciou o dia,
que o virou do avesso
para que a notícia não confrontasse o sol,
graça primeira de Deus verdadeiro.
Quando no zénite
se anunciou costumeira
a sirene dos bombeiros
— única lei que a cidade cumpre—
a tarde esqueceu a manhã
numa ínfima Páscoa
celebrada por insetos
e ervas, que à revelia da autarquia,
cresceram sobre o jardim das palmeiras.
Passaram uns pelos outros,
mas ninguém sabia soldar todos os pensamentos do dia,
como fazia o homem acocorado no deserto,
enquanto esperava abandonado e sereno
a mão que o guiaria.
Sem comentários:
Enviar um comentário