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sexta-feira, 31 de maio de 2019

31 de maio

Está calor. As carnes das pessoas começam a revelar-se como o miolo que rompe a casca da fruta. Os dias parecem mais felizes, mais luminosos. Há sorrisos em algumas caras outrora tristes. Troco os frequentes bons-dias enquanto subo a escada. Há uma espécie de conflito tácito, nos jovens e em mim, entre estar ali e não estar noutro lugar. Tivemos a bênção da vida, mas a ganância pede-nos sempre mais. Que o sol traga a humildade e a gratidão. Só assim a alma confusa  descansará. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Cantiga do nada

Estação da CP do Rossio (Linha de Sintra, 2019)
Não sabemos nada de memória, nem do amor
Não sabemos do nada, nem do tudo, do antes ou do depois
Não sabemos de Deus, quem o arrumou e em que gaveta
Não sabemos quem fomos, somos ou seremos
Não sabemos dos mortos, nem dos vivos, nem de nenhum outro estado intermédio
Não sabemos dos filhos, nem dos pais, muito menos do Espírito Santo
Não sabemos construir, nem destruir, por isso vivemos entalados entre coisas
Não sabemos que coisas são, não podemos dar-lhe um nome efectivo, nem afectivo
Não podemos explodi-las para as reconstruir

E era tudo tão simples e acessível
Era tudo tão nosso e deles

E agora não sabemos nada, nada

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O círculo

O tempo intemporal
É que é o verdadeiro tempo

Esse lugar  imprevisível
Onde o Apocalipse copula com a Génese

terça-feira, 21 de maio de 2019

Notre-Dame de Paris

Sobre o recente incêndio da catedral parisiense,  constatou-se a comiseração de muitos ateus e agnósticos nos diversos meios de comunicação. Entendo o subconsciente que os liga ao simbolismo daquele templo, mas não deixo de notar alguma incoerência com a sua  linha de pensamento. Enquanto,  simbolo matricial da cultura europeia, a Notre-Dame era para a maioria dos pensadores, um local de turismo histórico e pouco mais do que isso.Agora que eventualmente a conseguiram imaginar como eliminada,  a angústia levou alguns deles a partilhar a sua consternação. Contudo, para uma certa ideologia paganizada e moderna o incêndio de Notre-Dame começou no iluminismo e mesmo antes do recente acidente apenas restavam algumas cinzas. Nietzsche teve  a coragem de anunciar a nossa traição e procedente mal-estar.  O racionalismo terá sempre limites, assim como a apropriação empírica da realidade. Para além e aquém, fica o mistério. Para os que eregiram Notre-Dame,  o mistério da Virgem, mãe de Deus. 


"Nietzche, um grande solitário, situa-se no ponto de partida da corrente ateísta. Este filósofo quis pôr termo à era evangélica anunciando a morte de Deus aos homens que não ousavam assumir essa morte, depois de a ter executado.

  Tal como Kierkegaard, Nietzche devia esperar, para ser ouvido, que o desespero se inscrevesse nos corações desolados com a morte de Deus e desiludidos com os mitos de substituição.

  Dir-se-ia que surgiu um novo estoicismo em que o homem é exaltado no seu confronto com uma solidão fundamental". (Mário Ferro & Manuel Tavares em "Conhecer os filósofos de Kant a Comte", Editorial Presença (1991). Lisboa.)



Mas alegrais-vos, irmãos, porque Nossa Senhora, mãe eterna e humilde, está connosco agora e na hora da nossa morte, amén.

domingo, 19 de maio de 2019

Um cão sem pensamento

O cão agita a cauda,
marcando o compasso
da sua alegria. 
Olho-o de soslaio.
Feliz, ladra e abana-a.
Pudesse eu ser tu, sendo eu.
E com a cauda enxotar os pensamentos.
Porque para o homem que pensa:

domingo é já segunda-feira;

o princípio traz o fim;
e o sol que o abraça
é um  poente pressentido.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Antes da Páscoa

Antes da Páscoa
sou carbono sem asas
sem chefe sem esperança
que ultrapasse o fim do mês

Três mastins à porta
e uma mulher na cozinha
são insuficientes para ressuscitar
o cadáver disperso pelo quintal

E quando subo as escadas de incêndio
ouço ranger os degraus
e fico estático inerte
folha caída num jardim público
naqueles dias sem vento

Antes da Páscoa
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