09/01/2009

Shiva e a Destruição


A religião hindu é composta por uma miríade de Deuses. Existem contudo três divindades principais: Brama (O criador), Vixnu (O preservador) e Shiva (O destruidor).

O conceito do deus-destruidor não existe no âmbito da teologia cristã. Porém, quando pensamos num ciclo renovador a caminho do Nirvana, faz todo o sentido que alguém tenha o dever divino de destruir para que algo de novo possa nascer no seu lugar. Afinal, é muitas das vezes esta a lei da natureza animal ou vegetal.

Imbuído provavelmente neste espírito de aceitação da morte, escreveu assim um poeta italiano, Peter Barone, que se radicadou, desde os anos 60, nos Estados Unidos da América:

Destruição

Sufrágio da Destruição.
Razão da Renovação.
És o demónio mais antigo.
Dou-te o meu culto e o meu toque.
Personalizo-te.

Sozinho no teu espectro, sinto a trompa da vida
a ecoar sobre o oiro da minha existência.
A ti suplico-te que destruas e renoves,
que me mates, se já não fizer sentido.



Peter Barone

Newark - NJ - 1973

25/12/2008

Ladainha dos Póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira (in "Obra Poética: 1948-1988")

21/12/2008

Paranoid Park , exercício da realidade


“ Isto é mesmo assim” . No final deste brilhante e magnifico exercício de cinema pairava esta frase na minha consciência . Penso que esta expressão é a que define de melhor forma esta encantadora obra de Gus Vant San . O romantismo que a corrente main – stream sempre deu á adolescência , nesta obra é completamente desmascarada. Um jovem inadaptado , um homicídio cometido não voluntariamente, falta de acompanhamento pelos os pais são os ingredientes que misturados e cozinhados pelo génio Gus Vant Sant dão realmente a faceta de realidade e naturalidade a uma historia ficcionada . Para além de todos as suas qualidades , Paranoid Park é acompanhado por uma banda sonora que vem ainda mais reforçar a veracidade e o realismo com que esta obra foi construída. Excelentes interpretações dos actores , que sempre souberam jogar com o ambiente e as intenções do realizador . Filme indispensável para quem não sabe o que é adolescência de hoje em dia, e para a compreensão de vários problemas , duvidas e fantasmas que até um adolescente pacato poderá ter . Porque no fim todos nós somos iguais .

Pedro M. De Castro