26/03/2025

A cidade

 Abre-se a cidade — perdão, a janela —

 e as vozes entram como se atores desastrados 

falassem alto nos camarins.

 É quase primavera — perdão, é primavera. 

Aqueles primeiros dias de uma estação

 em que não sabemos ainda

 o que havemos de vestir. 


A cidade não para. Por isso é cidade. 

Se parasse seria outra coisa.

 E como eu desejaria que ela o fosse — ou talvez não. 

Sei apenas que as coisas deviam ser outra coisa, 

mas não sei ao certo como elas deviam ser. 

Estou confuso. Estamos todos. 


Por detrás da manhã, a tarde e depois a noite.

Sempre a mesma sensação do tempo sem qualquer aceleração. 

Apenas aquela impressão confortável 

de quando se vê os carros e as casas;

 os rios e os montes a 50 mil pés de altitude,

 enquanto comemos a sandes e o chá

 que o comissário de bordo nos entregou.


É isso, a vida? 


Uma gaivota emite os mesmos sons

que emitiria num porto de pesca. 

Anda, contudo por aqui ao lixo.

Nem sei como adormeci em Lisboa

e acordei em  Karachi, no Paquistão.

25/03/2025

Ode à poesia

 O que é a poesia senão o fulgor das paredes meias

com o pensamento, o júbilo dos Deuses, Ó meu Deus,

dos Deuses, imaginai.


Agora percebo a tua embriaguez, Whitman; 

o teu deslumbramento, Campos, 

tantas vezes tomado, ó incrédulos, por loucura.


A poesia é a coisa pensada, mas com mais nuances

com melodia e arrufos e sorumbáticos monólogos

antes do meio-dia.


"Nada do que é humano me é estranho".

É contra isto que lutamos, camaradas,

contra o cálculo, a indiferença.

É por isso que escrevemos, camaradas,

para erguer acima de todas as bandeiras,

a do espanto.


Mas o que é isto que ressoa, ecoa dentro da cabeça

como um gato ao sol que subitamente 

muda de cor dez vezes e se transforma em nuvem

e depois em chuva  e faz erguer nos campos de Andaluzia

girassóis.


O que é isto, caramba? Que segundo Heidegger é a filigrana da linguagem,

o mais puro  signo à procura de alguém para dizê-lo.

O que é isto, caramba?

Isto é alegria.


Se desejarem ouvi-lo dito por mim, cliquem abaixo:



19/03/2025

O paralítico

 

A manhã está negra

como se o norte viesse

buscar o filho à escola.



O tato e o medo

colam-se às pontas dos dedos.


Apesar de enfermo, o olhar

é uma transparência ensinada

por todas as imagens que passaram pelas retinas.


Talvez por isso,

fecho as pálpebras

e escuto assim melhor

a sonata para vento e cordas

dirigidas pela cauda de um cão nervoso.


A chuva cai incessante,

lavando e levando-me as mãos.

Só posso sentir, então.


Todo o ato é-me negado, por agora.