Há palavras janelas e gigantes
Outras há que são silêncio em vez de lábios
é com elas que ergo muros em meu redor
é com elas que retomo o ofício inaudito
do segredo
Textos de Luís Palma Gomes
Abre-se a cidade — perdão, a janela —
e as vozes entram como se atores desastrados
falassem alto nos camarins.
É quase primavera — perdão, é primavera.
Aqueles primeiros dias de uma estação
em que não sabemos ainda
o que havemos de vestir.
A cidade não para. Por isso é cidade.
Se parasse seria outra coisa.
E como eu desejaria que ela o fosse — ou talvez não.
Sei apenas que as coisas deviam ser outra coisa,
mas não sei ao certo como elas deviam ser.
Estou confuso. Estamos todos.
Por detrás da manhã, a tarde e depois a noite.
Sempre a mesma sensação do tempo sem qualquer aceleração.
Apenas aquela impressão confortável
de quando se vê os carros e as casas;
os rios e os montes a 50 mil pés de altitude,
enquanto comemos a sandes e o chá
que o comissário de bordo nos entregou.
É isso, a vida?
Uma gaivota emite os mesmos sons
que emitiria num porto de pesca.
Anda, contudo por aqui ao lixo.
Nem sei como adormeci em Lisboa
e acordei em Karachi, no Paquistão.
O que é a poesia senão o fulgor das paredes meias
com o pensamento, o júbilo dos Deuses, Ó meu Deus,
dos Deuses, imaginai.
Agora percebo a tua embriaguez, Whitman;
o teu deslumbramento, Campos,
tantas vezes tomado, ó incrédulos, por loucura.
A poesia é a coisa pensada, mas com mais nuances
com melodia e arrufos e sorumbáticos monólogos
antes do meio-dia.
"Nada do que é humano me é estranho".
É contra isto que lutamos, camaradas,
contra o cálculo, a indiferença.
É por isso que escrevemos, camaradas,
para erguer acima de todas as bandeiras,
a do espanto.
Mas o que é isto que ressoa, ecoa dentro da cabeça
como um gato ao sol que subitamente
muda de cor dez vezes e se transforma em nuvem
e depois em chuva e faz erguer nos campos de Andaluzia
girassóis.
O que é isto, caramba? Que segundo Heidegger é a filigrana da linguagem,
o mais puro signo à procura de alguém para dizê-lo.
O que é isto, caramba?
Isto é alegria.
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