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segunda-feira, 28 de junho de 2021

Previsão

 Do meu livro sei que nem um só poema será lido,

nem desfolharão para além da terceira página.

Lerão sem interesse um verso aqui, outro acolá.

A minha mãe comover-se-á com a obra

sem ler uma linha sequer.

Alguns amigos segredar-me-ão: "Genial!"

por misericórdia.

Os outros poetas pensarão: "Olha-me este".

O meu filho: "Coitado do pai."

A minha mulher confiante comentará 

para ela própria: "Ele lá deve saber porquê."

Eu achar-me-ei um génio incompreendido

e o livro não terá mais que um poiso escondido

numa bolorenta prateleira de um alfarrabista de subúrbio.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Cuidados

Dizem que os ossos se desfazem,
quando as lágrimas sabem a sal.

Dizem que  sulcos  escavam a face,
quando a lava transborda do coração.

Dizem muita coisa da  ausência
e da infelicidade que o tempo acumula sobre móveis.


Talvez sejam apenas rumores,
 inquietações da fala.

Ainda assim, refugiu-me na ilusão, 
a estação seca dos olhos.

E encosto a porta para que possas entrar 
com um caldo quente que arrefeça sem magoar.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Um sol enganador

 Olhou para mim e deixou-se lacrimejar. Era um sinal de paixão contida. Gostaria de ter-lhe perguntado o porquê daqueles olhos húmidos, daquele sentimento que crescia no seu íntimo como um rio subterrâneo de onde apenas um fio de água alcança a superfície. Não sabia se estava triste por si, por mim ou por ambos através de uma visão refletida entre as nossas vidas. Revia-se em mim? A minha tristeza ecoava na sua e vice-versa?

Naquela manhã, eu acordara com uma lucidez nascida das sombras. Uma realidade trágica  emergira depois de uma noite mal dormida: a desesperança, as promessas tornadas condições materiais e por isso mesmo transformadas numa espécie de canga que colocamos nos animais para puxar as charruas, a velhice, a impotência que sempre existiu, mas que conseguimos esquecê-la durante grande parte da vida, as mentiras que contamos a nós próprios para viver, para sermos amados, as traições, os ódios, as invejas e tudo o mais com que um ser humano consegue envenenar a graça da vida. Tudo isto se tornou nítido naquela manhã de uma forma exponencial. À minha frente, quem me conhece desde as entranhas lacrimejava em silêncio e de mansinho, como se adivinhasse cada uma das conclusões  que eu havia encontrado naquela manhã de  um sol brilhante, e só por isso, enganador.

domingo, 13 de junho de 2021

Oração

    Gosto de caminhar por uma charneca existente junto à Estrada dos Salgados na Amadora. É um local ainda impoluto, onde se podem observar muitas espécies animais e vegetais. Por ali vou compondo alguns dos meus poemas nos últimos cinco ou seis anos. Desta vez à medida que encontrava alguma evidência que me sensibilizava, escrevia um destes versos que se iam perfilando em modo de oração. Confesso que os pirilampos são importados de passeios crepusculares, não estando assim em sincronia com o resto do poema. 

    Acredito que o futuro acentuará esta síntese entre a religião e a natureza, ou seja, entre o criador e a obra. Registei também fotograficamente alguns desses momentos que também aqui deixo.


Oração 

Nossa Senhora dos Fenos guia-nos pelos atalhos dos cavalos selvagens.

Nossa Senhora das Borboletas ensina-nos em que flores orar.

Nossa Senhora  dos Pirilampos alumia a noite dos enfermos.

Nossa Senhora dos Ribeiros sacia-nos a sede de infinito.

Nossa Senhora das Formigas ajuda-nos a carregar a culpa e o castigo.

Nossa Senhora das Carriças encaminha-nos  para o ninho.

Nossa Senhora das Trovões explica-nos as nuvens negras do caminho.











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