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segunda-feira, 29 de março de 2021

Amor distante

 Às vezes,

num certo instante,

num verso perdido,

num poema esquecido

 no bolso das calças

encontro sem querer

o amor distante.


Meto a mão no queixo

e penso depois o quanto 

há nesta ideia de redundante, 

porque o amor e a distância são causa e efeito,

e haverá uma ordem e haverá um proveito.


Mas que importância terá a ciência disto,

nos versos que Luiz  fez a Violante?


domingo, 28 de março de 2021

Os três tipos de portugueses, segundo Fernando Pessoa

 Segundo o que Pessoa escreveu num ensaio chamado "Sobre o homem", há três tipos de portugueses:

O primeiro tipo de português apenas existe por existir e só por isso Portugal existe. Trabalha e vive de forma obscura e modesta; engrossou, qual iniciático inocente, as fileiras de infantes de Aljubarrota, acreditou que La Lys era o contra-ataque de Alcácer Quibir. É um homem que se irrita com a verdade, porque sabe que ela não existe, para além da ciência que ele não entende. Por isso, aguarda que uma mentira credível — ou simplesmente uma fantasia alternativa ao tédio em que caiu — o emocione e o faça agir. Porém ele apenas o fará quando todos os outros o fizerem. Porque este português que são muitos é só um apenas. É na sua génese um indivíduo coletivo que faz de conta que não sabe que a política é  uma mentira que nos projeta para um lugar diferente.   


O segundo tipo de português é o que não é português: começou com uma invasão mental por vontade do Marquês de Pombal. Quando viu que afinal estava enganado, fez aquilo a que se chama uma fuga para a frente com o constitucionalismo. Perdeu a razão com toda a euforia que a demência nos remete com a república. Está completamente divorciado do país que governa ou julga governar. É por sua vontade, parisiense, nova-iorquino, prussiano, bolchevique. E contra sua vontade é estúpido.


Por último há um terceiro que nasceu no reinado de Dom Dinis, momentos em que o império se esboçou. Foi-se embora para Alcácer Quibir onde morreu. Contudo, deixou parentes que continuam à sua espera. Esperam-no a ele, sabendo que com ele virá el-Rei Dom Sebastião, o verdadeiro último rei de Portugal.


Bibliografia: "Mensagem e outros poemas afins" de Fernando Pessoa - Ed. Europa América

domingo, 21 de março de 2021

Conhecer

O que posso eu conhecer? Como? E o quê? 

Para além dos limites cognitivos impostos pelas dimensões do tempo e do espaço, as minhas emoções  condicionam-me  também o entendimento. 

Se uma sinapse da rede neuronal  é ativada quando uma determinada carga elétrica a estimula, poderá o mesmo acontecer com o nosso grau de entendimento das coisas: a paixão ilumina-nos os mais crípticos  poemas da amor, a doença explica-nos a fragilidade humana e por esta via os caminhos da metafísica e do transcendente. 

Conhecer não está assim ao arbítrio absoluto do sujeito, mas também das suas circunstâncias. O primeiro passo é  de facto arbitrário e começa pelas perguntas : estou preparado para conhecer? encontro-me em condições  para conhecer? Estas premissas são definidas por: primeiro, uma atitude interior que permita aceitar o conhecimento sem baias; segundo, ter a certeza  que me é dado a conhecer a coisa na sua forma mais nítida, sendo esta claridade fruto da razão ou da experiência.

A tomada de consciência das circunstâncias mais imediatas ou próximas aumentará  a possibilidade para conhecer. Este novo conhecimento permitirá dar resposta imediata sobre o que é a minha realidade, porque o "eu" apenas o é num determinado espaço e tempo. Assim — e partindo desta primeira camada de conhecimento —    podemos progredir para  perguntas mais universais e cujo a grandeza  ultrapassa os limites possíveis  da nossa intimidade com as mesmas.


"Meditações sobre Quixote" - José Ortega y Gasset
"O que é a filosofia?" - podcast sobre  Immanuel Kant de António de Castro Caeiro

quinta-feira, 18 de março de 2021

Os anciões da Cinemateca

Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca. Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece. Na tela, ainda haverá  esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes. 

Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar? Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala. O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles  grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira. Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes:  "Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje ".




domingo, 14 de março de 2021

A gata comeu o Sol


Queria o Sol e a gata comeu-o.

Agora ando assim assim, tateando os móveis, desviando-me das formas esquinadas, vendo apenas o que a luz da Lua me deixa ver.

 Têm razão os soturnos, quando dizem que a penumbra tenuemente iluminada exagera os perfumes, os uivos, os passos, o ranger dos materiais,  transfigurando as coisas banais em visões fantásticas. 

Tenho saudades do Sol, mas confesso que aquela luz era demais. Cegava-me com excesso de coisas reais.

 A gata comeu o Sol. São muito inteligentes os animais.

sábado, 13 de março de 2021

Metafísica: um caso de estudo

  A tarde era de março, solarenga e chuvosa. Talvez porque a instabilidade dos elementos instigava à ação - ainda que esta pudesse ser apenas pequena e moderada – fugi dos caminhos alcatroados do jardim, desviando-me por um atalho pisado entre ervas que me levaram a uma ribeira. Devido às chuvas, a corrente pulsava nervosa e alegre entre as pedras que pontuavam um caminho entre as margens. Veio-me a vontade de atravessar ali mesmo. Tracei mentalmente uma rota possível pedra a pedra e lancei-me à empreitada. Já os pés saltitavam pelas primeiras pedras, quando me senti desequilibrado e hesitante sobre qual a pedra onde deveria pousar a próxima passada. A água trepava agora lentamente pelos ténis acima. Vislumbrei ao meu lado um caniço que se sobrepunha horizontal à ribeira. Era tão enfezado e quebradiço que tinha como única função servir de poleiro às toutinegras que caçavam mosquitos por ali. Ainda assim, com a mão direita agarrei-me a ele. Com surpresa, notei que aquele corpo estreito e frágil deu-me uma confiança inesperada. Senti-me seguro outra vez e sem mais delongas segui pedra a pedra até à outra margem sempre com o caniço dentro da mão.

Quando lá cheguei, perguntei-me: se não foi a solidez do caniço que me garantiu a estabilidade durante a travessia, o que foi? Tinha sido algo de imaterial, um sentimento, uma aliança entre as forças invisíveis que me habitavam e rodeavam. Creio que é a isto que os filósofos chamam de metafísica.    

sexta-feira, 12 de março de 2021

Mais um poema (Versão XL)

 Ao professor António Castro Caeiro


É só mais um poema.
Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.
Então o que é? De onde chegam? 
Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?

Onde mora o centro fértil desta harmonia?
Fora ou dentro?
Será um  coito ou uma afirmação desabrigada da loucura? 

Os pássaros respondem a todas estas perguntas. 
Não os entendo, porém.
Talvez seja isso mesmo um poema, 
uma tentativa mais para entender a fala dos anjos 
ou dialeto interior dos pássaros que fomos ou seremos, 
porque o presente não existe.
É um tempo demasiado puro e escasso
para a imperfeição dos sentidos.

Onde ia eu? Ah, sim, o poema...

Dizia então que o poema não é o que parece ser,
porque nunca havemos de chegar à essência  das coisas.
É o que a ciência dos computadores chama de firewall humana.

Mais um poema

É só mais um poema.

Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.
Então o que é? De onde chegam? 
Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?

Onde mora o centro fértil dessa harmonia?
Fora ou dentro?
Será um  coito ou uma afirmação desabrigada da loucura? 

Os pássaros respondem a todas estas perguntas. 
Não os entendo, porém. 
Talvez seja isso um poema, 
uma tentativa mais para entender a fala dos anjos.

sábado, 6 de março de 2021

Não olhes para trás

À tua frente, Eurídice,

as cotovias cair-te-ão aos  pés,

desenhando pelo deserto

um maná de rosmaninho e penas.


Não olhes, Eurídice,

para o falaz atalho da memória.

Nem os corpos, nem as palavras

são coisas repetíveis.


Mesmo as leitosas nascentes da tua infância

eram poças secas de barro preto.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Reflexão: A primeira aula

Caminhamos até ao limite da aldeia. Nos últimos candeeiros públicos, os morcegos em voos irregulares caçam traças atraídas pela luz. Ouvem-se os cães a ladrar: um aqui, outro acolá ao longe. Mas foram outras luzes que  nos  trouxeram aos arrabaldes.  Viemos ver o céu  estrelado: galáxias, planetas, estrelas.

Tudo isto é imenso, um mar de probabilidades, um infinito mistério.  A primeira aula de teologia devia ser sobre astronomia. 


                                        Fotografia de  Mike Setchell em Unsplash

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