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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A garça e o lago

 os raios vencem

a névoa baixa do lago

a garça regressa


peixes vermelhos

agitam o sono da água

a garça espera


a lua já brilha

no espelho do lago

a garça parte

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Os sete haicais da Serra da Lousã

Acordámos. À nossa frente um pequeno carvalhal fazia-nos companhia ao pequeno almoço:


a manhã acende
o orvalho nas folhas novas 
o chapim canta


Depois fomos ao rio Arouce, à praia da Nossa Senhora da Ermida. Subimos um pouco o rio, procurando o conforto do isolamento. Alguns metros acima do famoso baloiço, encontrámos uma represa natural. Por cima dela, um grande pedra servia-lhe de varanda. Ali descansámos. Aproximei-me do rio e escrevi:



o rio desce
por debaixo das acácias
o peixe sobe

aragem cintilante
nos raios do meio-dia 
voa a libélula 

a água corre
no labirinto das pedras
uma rã imóvel 

o som da corrente 
melodia da nascente 
as pedras dormem

as folhas caiem
voam com o vento
o monge pensa

duas borboletas 
dançam entrelaçadas 
novas lagartas

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A caminhada

Serra a cima, serra a baixo, os dois fomos um: ajudaste-me a transpor a fronteira dos meus medos, subimos e descemos o vale e avançámos depois aos ziguezagues pelas margens do rio, porque não há um caminho directo para nada que valha a pena. E no final, mergulhámos nas águas translúcidas e límpidas do rio, como se tivéssemos a entrar num merecido paraíso ou mesmo num antigo lugar de onde partimos outrora. 

Se esta caminhada não foi uma metáfora da vida, então foi um sonho partilhado que tivemos  numa cabana de madeira no sopé da montanha, tão real e concreto que nos pareceu verdadeiro. 

Nota: A própria forma parabólica do vale evoca a vida: nascemos espírito, caminhamos depois  no sentido descendente da terra, da matéria. Mais tarde iniciamos de novo a subida para o céu, até ao que é leve e somente ideal. 


O baloiço

Acordo e procuro um sentido para o dia num deserto apinhado de coisas magníficas. Faço-me acreditar que sou feliz, apesar do vazio destes frutos que a serpente me entrega. E só posso dizê-lo aqui porque o poema é um segredo para todos, inclusive para mim. Tento esquecer a morte, mas ao lembrar-me a toda a hora de esquecê-la, ela torna-se uma ideia fixa. A vida é um baloiço que vai e vem. Damos balanço com o corpo e a mente, esperando que ele não pare, rezando para que a corda não parta.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Carro da Palha segundo Hyronimos Bosch

Porque corres agora berrante
em redor dessa carroça de palha em chamas?

Mil e tal voltas
em redor da merda de uns espelhos
e de algumas outras gangrenas
se finalmente te escolhem,
para uma infinita podridão de pomos
habituados ainda ao consolo dos ramos.

Nessa derradeira estação das uvas
será outono e entre os seus rostos
reconhecerás em ti
a solidão dos mostos, um verdilhão
enviscado à hibernação das árvores
e outros expedientes informais até então
esquecidos.

Alguém contemplando-te
do cimo de um vertiginoso andaime
ver-te-à  naufrago.

Lançarás as tuas mãos  suplicando as dele
mesmo sabendo que agarrarás as tuas apenas.

Terão ambas o estigma de um prego
ansioso de cruz.

Tu mesmo serás um cristo possante
crucificado afinal
sem o brilho do mártir verdadeiro.

Mais tarde ou mais cedo
a  maré descerá sob os teus pés
e  por essa imensa praia
renascerão as violetas e outras cores ligeiras.

Tudo isto por detrás dos teus olhos de Cristo repetido.

Diante de ti
ainda e sempre
teus filhos ardendo
nas línguas de uma palha pungente.

     
         Viagem de comboio "Castelo Branco-Lisboa" em 1999

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O poema

Procuro o poema.
Toda a vida à procura do terrível poema  imortal.
E se ele já não existe?
E se já o descobri?
O que farei com estas mãos,
enquanto caminho errante 
por florestas de símbolos de coisa nenhuma?

Procuro o poema que ninguém conhece,
por isso não me ajudem.
Não me enganem, por favor. 
Há coisas que apenas se podem fazer sozinho.

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