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sexta-feira, 24 de abril de 2020

«Memórias» de Raul de Brandão

"Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo nada até morrer - desaprendo até morrer. Não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas. O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo..." 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Quarentena - II

À noite,
Quando me deito
Escolho um sonho entre as lembranças 
E construo com ele o tal mito 
Em que acredito ser eu próprio. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Quarentena - I

Hoje não tirei o pijama. Trabalhei com ele o dia todo. Quando a tranquilidade possível - numa cidade como  a Amadora- chegou, fui até à janela, olhar um renque de árvores que vivem do outro lado da linha férrea.

"Qualquer dia, cortam-vos." - pensei eu, aborrecido com o abate de árvores que o município tem promovido em algumas zonas.

É o preço da imobilidade, a desvantagem  de quem não pode fugir, a inércia semelhante àquela que um pijama velho e gasto traz ao corpo.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Parado

Insone e atento
aos reflexos nas vidraças,
aguardo o instante
em que o ribombar do trovão 
ou tão só a notificação digital 
dar-me-á o sinal que o mundo mudou
e eu não. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Do sotão dos moleskines

Perdidos no tempo e em velhos moleskines - que empilho onde calha na secretária - releio agora alguns desses poemas, neste tempo de quarentena:

Dedilho as vagas
como cordas de uma arpa
procurando o meu par
no fundo do mar.

O que se passa? Não sei.
Talvez o destino o lançasse
às água profundas
de uma chávena de chá.



quarta-feira, 8 de abril de 2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Ninho abandonado

















Ao Pietro e a Beatrice


A casa está só,
oca, noz desmiolada

O sangue fluiu 
pela mesma fresta 
onde o frio entra agora

A cal das paredes caiu
porque eram as asas dos anjos
que a escoravam intacta 

Os tectos refletem  apenas
o ocre velho
dos corações maduros

E até a fruta perdeu 
aquela acidez benfazeja
das coisas novas e nubeis

Levaram o calor
que  a raiz leva à flor
sem lhe pedir mais nada
que o primeiro odor da madrugada 








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