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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Sobreviver

Numa reunião/formação de professores lá na escola, a formadora perguntou a razão que nos movia para dar aulas. Todos os professores tentaram encontrar motivos para fazê-lo: houve argumentos altruísticos, pessoais, politicamente correctos, humorísticos, profissionais. Contudo, houve um que me deixou a pensar. O professor disse que a sua razão para dar aulas era "Sobreviver". Naquele momento, pareceu-me que ele estava a tentar chocar ou evidenciar-se. No dia seguinte, aquela motivo não me saía da cabeça. Era  básico e animal, mas também me parecia agora o mais sincero e profundo. Agora, ao analisar todas as outras respostas, mudei de opinião e todas elas me pareciam invenções, tentativas de nos enganarmos a nós próprios ou de iludirmos os outros. Sobreviver era a causa primeira. Porque o homem quando idealiza, entende que a realidade fica sempre aquém do ideal. Então, faz o que pode para sobreviver, na esparsa esperança de dia a dia se aproximar dessa ideia que criou, como destino ou missão, para si mesmo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Instagrama

raizes, pedras,
restos de unhas de cotovia
dispersos pelo jardim

ervas, paus,
casas minuciosas, 
pontes de sol e terra

fios de seiva,
outras águas pequenas, 
sem sabor, nem fim

cantigas de fadas
na voz dos anjos
de cima para baixo
como chuva ou ordens 

tudo imóvel, 
instantâneo, 
amoral, natural,
sem não, sem sim


Jardim da Aroeira, 9 de fevereiro de 2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

outros tempos

Subiamos às árvores.
E lá em cima, viamos o futuro,
quais druidas modernos.

Não haviam chefes de tribo
e as tristezas afundavam-se
nos labirintos que as formigas 
esculpiam chão abaixo. 

Era o tempo em que tínhamos só um nome
com a sua máscara admirável. 
E tudo era apenas uma manhã, 
um sol invicto e expoente.

Certo dia ouvimos o piar sobressaltado 
do pássaro negro que fugia para a frente.
Fomos inquietos atrás dele.

Era já tempo.

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