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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Pela janela

Escuta a promessa do sol

ao pôr-se por detrás da tarde chuvosa.


Lembra-te que todas as tardes

podem ser a véspera da noite infinda.


Não estremeças, por isso,

como  o caule da margarida

quando o vento o sacode.


Melhor será

abandonares-te ao destino

como  o caracol que atravessa paciente

o asfalto agitado da avenida. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Pré-História

 Nada é agora.

Tudo é antes e outrora.

Tudo é lá atrás:

antes do antes,

Génesis da Génesis,

causa da causa,

pequeno embrião

coberto por folhas 

amarelecidas pelo bafo 

da primeira estrela.


E nada, nunca e em lugar nenhum

coisa alguma aconteceu,

que não provenha do principio.

Se queres ser, começa .




sábado, 12 de dezembro de 2020

Inverno

o inverno canta

numa fresta da janela

o melro escuta










Blackbird on Bamboo Branch Kawanabe Kyôsai (Japanese, 1831–1889) 

in Metropolitan Museum Art

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A conspiração

Caros senhores e senhoras,

Ao levantar-me  hoje pela manhã, olhei o vazio que se estende infinto por cima das nossas acomodadas cabeças  e percebi que não  há obviamente uma conspiração dos patos.
Se a houvesse, os seus bandos não passariam sob a minha casa, grasnando com o desalinho de uma banda filarmónica nos primeiros ensaios. 
Também os pardais de olhinhos redondos e plácidos não suscitam em mim qualquer duvida quanto à sua  fidelidade à espécie humana.
As formigas, essas sim.
Vejo-as silenciosas e intrépidas calcando paredes e tetos sem descanso no vácuo da noite.
Quando se encontram trocam secretas e curtas mensagens. 
Cada uma delas saberá apenas de um rebite, de um parafuso, de uma porca ou de um milímetro de aço desse  navio que as levará durante o  dilúvio à Ilha do Mel.
Até aí nada contra. 
Mas porque passeiam elas nos olhos dos  animais que surgem mortos pelos campos sem causa aparente? 
O que levam elas daqueles cadáveres, se não a alma dos pobres animais? 

Chamem-me louco se quiserem. Porém, insisto: o que levam elas? Ninguém vê, não  é? Pois não. Alguém já  viu uma alma? Quanto mais uma pequenissima fração dessa alma roubada  que cada uma delas  transporta.

Para os mais céticos, uma pergunta final:
Porque em riste se levantam dos seus capacetes de bronze duas laboriosas antenas?

Admitamos humildes que não sabemos o que não sabemos.
E a única aproximação aos mistérios da natureza alavanca-se  na nossa mesquinha desconfiança e constante vigília. 
Por isso, estejamos  atentos. E façamos perguntas, caramba. Não deixemos que os nossos olhos se habituem ao meticuloso desmanche do mundo. Sim, desse mundo, senhores, no qual, e apesar de tudo, sobrevivemos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Conspiração

Este rio vem de longe. 

Entra por ti dentro: rumor, brilho, corrente. 

E o som da água quando se desvia das pedras 
lembra-te outros rios ausentes.

E assim sabes e sentes
que mesmo no vigor do meio-dia, 
o fim conspira com a luz e com o tempo,
a próxima noite eterna.


Local: Ponte em Queluz sobre o Rio Jamor

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Reflexões pelo bosque afora

 I 

Li a história de um cão pisteiro de lobos que trabalhava apenas para que o dono lhe atirasse uma pequena bola no final da tarefa. Também na minha infância, nos intervalos das aulas, eu perseguia feliz e recompensado uma bola de borracha. Era tribo contra tribo: sentimento de pertença e adrenalina. Mais umas gotas de dopamina quando marcávamos um golo. Isso me bastava.

Agora preparo-me para a eternidade possível. Tento escrever, porque me parece que os pensamentos não morrem. Leio e vejo clássicos, também e sempre que posso. Tento aprender latim com o Frederico Lourenço, preparando-me, como posso, para visitar os mortos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Fronteira

Há uma barreira invisível 
entre mim e o mundo.

O rio, que corre a meus pés, 
desvia-se através da película dos olhos. 
Esse limite aquoso 
levantado entre as imagens e as sensações.

Entre mim e a realidade,
há um vidro polido e deslizante
que me separa das coisas vivas.

Às vezes distraído, embato nele, 
tão nítido e sedutor, ele me parece.  
.

domingo, 8 de novembro de 2020

A ruína política

És o dançarino que chegou tarde à festa.

És o partisano depois da queda do Muro.

És o princípio que chegou depois do fim.

És o solista que trocou o dia do concerto.

És o ateu orando ao Teorema de Pitágoras. 

És a espingarda que encravou no fuzilamento dos Romanov.

És relógio que partiu o ponteiro das horas.

És mas já não estás. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A mentira é uma meia rota

A verdade é uma meia rota, onde um dedo nu aparece descarado por detrás da máscara para acabar com a farsa.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

A morte é um gato


A  morte é um gato
à espera da tua distração. 

E tu, consciente e vigilante, 
cantas toda a noite
as tuas dores inventadas.

Porque as verdadeiras 
estão guardadas na caixa grená 
que arrumaste não sabes onde.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Visão

Hoje sonhei contigo, que fazíamos amor. Estavas sentada sobre mim; teu tronco erguido; tua zona púbica colada no meu pénis; o meu corpo náufrago sob o teu, vestuto e carnal, como se fosses naquele momento uma amazona de amor somente.

E assim, eu, casco, tu, vela, navegávamos no leito do nosso leito. E o teu suor, teu odor jovem eram o meu êxtase,  a minha cura, a escada ascendente que me levava de um passado símio até ao esplendor humano.

Tudo isto, ao longe, nas trevas, sob uma luz timidamente perpétua. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Avezinhas

Olho com prazer as aves:

felosas geniais aprendendo o caminho da graça

no labirinto dos silvados;


piscos de peito-ruivo ensinando bel canto

às gralhas coitadas ainda tão atrasadas

na viagem da harmonia;


e as últimas andorinhas procurando atónitas

o bando que partiu  mais cedo

e as deixou sozinhas;


Surpreso com as aves, frágeis, voláteis, 

ascendendo e descendo dos céus

pergunto se não serão elas

agentes pagãs de Deus?

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Mistério

Ao contrário dos animais que querem para viver, os humanos vivem para querer. E de tanto querer, deparam-se com tantos novos desafios. E se encontram na razão, uma solução para o penúltimo deles. Para o último, só têm o silêncio.

domingo, 13 de setembro de 2020

O velho e o destino

Duas amigas brincam fraternas na espuma que as ondas trazem à praia quase deserta. Dali, um velho contempla-as. Revê nas miúdas o tempo que por ele passou. Ou terá sido ele que passou pelo tempo? A inversão do sujeito revela a vontade de quem passa por quem. A vontade de quem conduz o destino. E o destino é a noite que cairá entretanto, a partida das miúdas, o frio já pressentido. O destino é o nada. O velho por instantes olha-as pensativo e literário, fazendo de conta que não o sabe ainda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Haicais do Orvalho

nada brilha mais
que o orvalho de ontem
ervas da manhã

na fina teia
um bando de aves verdes
o orvalho reflecte

o orvalho cai
de uma casca molhada
o caracol sai

o orvalho enche
a gota que cai no tanque
relógio subtil




segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A garça e o lago

 os raios vencem

a névoa baixa do lago

a garça regressa


peixes vermelhos

agitam o sono da água

a garça espera


a lua já brilha

no espelho do lago

a garça parte

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Os sete haicais da Serra da Lousã

Acordámos. À nossa frente um pequeno carvalhal fazia-nos companhia ao pequeno almoço:


a manhã acende
o orvalho nas folhas novas 
o chapim canta


Depois fomos ao rio Arouce, à praia da Nossa Senhora da Ermida. Subimos um pouco o rio, procurando o conforto do isolamento. Alguns metros acima do famoso baloiço, encontrámos uma represa natural. Por cima dela, um grande pedra servia-lhe de varanda. Ali descansámos. Aproximei-me do rio e escrevi:



o rio desce
por debaixo das acácias
o peixe sobe

aragem cintilante
nos raios do meio-dia 
voa a libélula 

a água corre
no labirinto das pedras
uma rã imóvel 

o som da corrente 
melodia da nascente 
as pedras dormem

as folhas caiem
voam com o vento
o monge pensa

duas borboletas 
dançam entrelaçadas 
novas lagartas

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A caminhada

Serra a cima, serra a baixo, os dois fomos um: ajudaste-me a transpor a fronteira dos meus medos, subimos e descemos o vale e avançámos depois aos ziguezagues pelas margens do rio, porque não há um caminho directo para nada que valha a pena. E no final, mergulhámos nas águas translúcidas e límpidas do rio, como se tivéssemos a entrar num merecido paraíso ou mesmo num antigo lugar de onde partimos outrora. 

Se esta caminhada não foi uma metáfora da vida, então foi um sonho partilhado que tivemos  numa cabana de madeira no sopé da montanha, tão real e concreto que nos pareceu verdadeiro. 

Nota: A própria forma parabólica do vale evoca a vida: nascemos espírito, caminhamos depois  no sentido descendente da terra, da matéria. Mais tarde iniciamos de novo a subida para o céu, até ao que é leve e somente ideal. 


O baloiço

Acordo e procuro um sentido para o dia num deserto apinhado de coisas magníficas. Faço-me acreditar que sou feliz, apesar do vazio destes frutos que a serpente me entrega. E só posso dizê-lo aqui porque o poema é um segredo para todos, inclusive para mim. Tento esquecer a morte, mas ao lembrar-me a toda a hora de esquecê-la, ela torna-se uma ideia fixa. A vida é um baloiço que vai e vem. Damos balanço com o corpo e a mente, esperando que ele não pare, rezando para que a corda não parta.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Carro da Palha segundo Hyronimos Bosch

Porque corres agora berrante
em redor dessa carroça de palha em chamas?

Mil e tal voltas
em redor da merda de uns espelhos
e de algumas outras gangrenas
se finalmente te escolhem,
para uma infinita podridão de pomos
habituados ainda ao consolo dos ramos.

Nessa derradeira estação das uvas
será outono e entre os seus rostos
reconhecerás em ti
a solidão dos mostos, um verdilhão
enviscado à hibernação das árvores
e outros expedientes informais até então
esquecidos.

Alguém contemplando-te
do cimo de um vertiginoso andaime
ver-te-à  naufrago.

Lançarás as tuas mãos  suplicando as dele
mesmo sabendo que agarrarás as tuas apenas.

Terão ambas o estigma de um prego
ansioso de cruz.

Tu mesmo serás um cristo possante
crucificado afinal
sem o brilho do mártir verdadeiro.

Mais tarde ou mais cedo
a  maré descerá sob os teus pés
e  por essa imensa praia
renascerão as violetas e outras cores ligeiras.

Tudo isto por detrás dos teus olhos de Cristo repetido.

Diante de ti
ainda e sempre
teus filhos ardendo
nas línguas de uma palha pungente.

     
         Viagem de comboio "Castelo Branco-Lisboa" em 1999

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O poema

Procuro o poema.
Toda a vida à procura do terrível poema  imortal.
E se ele já não existe?
E se já o descobri?
O que farei com estas mãos,
enquanto caminho errante 
por florestas de símbolos de coisa nenhuma?

Procuro o poema que ninguém conhece,
por isso não me ajudem.
Não me enganem, por favor. 
Há coisas que apenas se podem fazer sozinho.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Ícaro-poeta

Se seguirmos a razão, encontramo-nos todos no beco da verdade. Quem já lá chegou, dali não passa. O que são os grandes clássicos mais do que estradas sem saída? Se tivermos asas de poeta, podemos pular, voar  dali para fora. Mas temos de aprender a cair e a descolar de novo, enquanto enxugamos as lágrimas do  rosto

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Entre poetas

Os poetas falam entre si como as árvores, ou seja, por debaixo da terra, onde as suas raízes se tocam e trocam cargas eléctricas de baixa potência. Nos dias de vento, generosos, lançam pólen pelo ar à espera de fecundarem um útero imaginoso, um óvulo lírico ou tão somente de perfumar o ar feliz de toda  gente. 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O profeta

Andam sempre a mudar o nome às coisas.
É intemporal esta inquietude.
Antes quando alguém subia sozinho à montanha
ou atravessava o deserto sem propósito material
chamavam-lhe profeta.
Ele escutava e depois professava.
Agora chamam-te a ti.
E depois num subtil jogo de máscaras, 
num disfarçado discurso, 
pedem-te que reveles as palavras.
E tu respondes que "somos um animal sabedor da morte."

Compreendo, todos nós aliás, 
que seria ousadia
diante a periclitante situação do nosso pensamento, ousares dizer o que por lá  ouviste.

Mas aqui entre os dois 
podes segredar-me ao ouvido,
o que te disse afinal Deus?

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Porque escrevo?

O ato de escrever contém em si uma dupla ambiguidade: permite a ilusão de viver e a ilusão de não morrer. Ainda assim, ciente da fantasia, um ente acorda dentro de nós e recita-nos, uma a uma, as palavras. Transcrevemo-las como se fossem coisas reais por fora e abstrações convencionadas por dentro. Mas o enigma não fica por aqui. Outro mistério encerra esta prática: Para quem escreves? Para ti? Para eles? Para o infinito, consumando assim a tua intenção imortal?

A mente não se cala: fala-nos ininterruptamente. Podes ordená-la, colocá-la ao serviço de uma função, de um objetivo vital e concreto. Porém, ela ficará exausta e reduzida a esse altruísmo, utilidade social, a esse molde definido por outrem para ela. Por isso, pede ao corpo para parar, ir buscar um papel, uma caneta, acender um cigarro e escrever sem utilidade, nem público, num daqueles pequenos atos burgueses concedidos à plebe iletrada que nunca frequentou estudos clássicos, nem nada. Quer apenas recrear-se, confessar-se, transcender-se como um operário que passa todo o sábado na pesca mesmo sabendo que não apanhará nada. A mente quer voltar a inventar histórias, como aquelas que imaginou quando na infância colocamos os nossos brinquedos a conviver entre si. Ela quer outra vez brincar ao faz-de-conta, que é talvez o que fazemos a vida toda em negação. O escritor - e não importa a sua qualidade e reconhecimento público - apenas assume perante si e os demais: "Agora é a brincar", "Agora é a sonhar", "Agora é sem limites", "Agora é que pura e desinibida a minha voz falará","Agora é que as vozes em conflito que eu sou ganharão voz: os muitos serão um e vice-versa".

Às vezes, pergunto: Como é que escreve a minha gata? Os peixinhos do meu aquário? Como escreviam as pessoas antes da escrita? Porque me parece tremendamente injusto que alguém possa viver com o seu pensamento agrilhoado apenas à mecânica arte da sobrevivência.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A crença

Acredito no que está depois e no que está antes.
Não acredito no presente.
Não passa de palha seca
para ser comida e defecada por grandes herbívoros.
O presente é o futuro do passado
e o passado do futuro.
E esse ponto de convergência, que sou eu agora,
é-me insustentável.

Não acredito no que se vê,
porque ninguém vê a mesma coisa.
Acredito apenas nas ideias que  ninguém viu.
Porque essas sim valem a pena perseguir.
E apenas se persegue algo em que se acredita.
Tudo o resto são sombras, efeitos ilusórios
de causas momentâneas.

Não, não acredito no que se vê.
Acredito apenas nos olhos,
como coisa que está antes e depois de ver.
O durante - esse presente que quando pensamos nele já não é -
é corruptível, efémero e indescritível.

Espaço e tempo não são sincronizáveis pelo olhar,
mas tão apenas pelo pensamento.

Não acreditam?
Olhem uma estrela que está a cinco mil anos luz.
Se calhar, já lá não está.

Como poderia eu assim acreditar?

domingo, 12 de julho de 2020

Coração

Se outrora o poeta escreveu "Não posso adiar o coração", também eu não posso adiar o meu.
Quando descobri a finitude entra as datas da hagiografia de São Francisco, decidi enterrá-lo, esperando que o sortilégio do Sol, ao cozinhar a terra, faça nascer, crescer e florir uma árvore cardíaca. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Ex-amigos

Éramos bons amigos.
Fomos tentados pelo poder,
cada um à sua maneira, peso e medida.
Inventámos narrativas para nos justificar,
cada uma delas tinha a sua forma de iludir.
Matámos uma longa amizade.
Tudo morre, antes ou depois, afinal o que importa?
Agora somos surdos-mudos entre nós.
O que resta?
Uma lembrança frágil dessa amizade
que estas palavras tentam sem esperança edificar.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A respiração do universo

Lembrei-me que a expansão do universo pode ser devida a uma inspiração do mesmo. E quando ele espirar, tudo regressará à origem, ao antigo monólito que unia toda a matéria antes do Big Bang.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O dilúvio

Dizem que anda um vírus no ar. Daqui para acolá. Explorando narizes, gargantas áureas, o forro das mãos e jardins felizes.

Quiçá a cigarra que canta a cegarrega do Estio já o viu a esquivar-se para o turno da noite?
Ou foi aquele pardal sadio que lançou o boato?

As televisões agigantam-se: será verdade que o maligno soprou seu canto de sereia ao ouvido do Criador, adormecendo-O um século apenas, deixando o mal plantando na cidade inventada sobre um velho bosque natural?

E agora senhores quem acorda Deus se as preces se rezam rasteiras tão presas aos lábios que nem as teias de aranha se mexem com o vento das palavras ?

Todas as noites, na hora do telejornal, cada pergunta acumula novas respostas e o que era irmão  e pessoal se torna viral, mundano, habitual.

Habituados ao terror, os animais tentam nadar sob os pingos cheios do dilúvio. Alguns alcançam a arca, outros nem tanto.

Mais tarde, muito mais tarde chegará a pomba e o pequeno rebento da oliveira, que cresceu durante este tempo longínquo, quintal da Terra repetidamente prometida.






Fogo

Querido fogo,
vem aquecer as memórias dos primeiros natais.

Arder a lenha da história que nos atravanca o caminho.

Acender-me o coração,
antes que se apague a lembrança da primeira paixão.

domingo, 5 de julho de 2020

Os móveis

Há pessoas que não param.
Não se deixam desenhar. 
São alvos imprecisos do olhar dos outros,
impossibilidades estáticas, 
sombras esquivas do sol,
filhos deserdados 
da imortalidade dos traços. 

Água

Querida água,
queria pedir-te que matasses a sede da gazela.

Lava-lhe ainda aquelas feridas que não saram.

E  quando partires outra vez para a foz, 
leva contigo o brilho fugaz dos peixes que subiram à montanha.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Ar

Querido ar,
hoje queria voar contigo até às andorinhas.

Planar sozinha por dentro de nuvens cheias de mar.

Acender o Sol,
para aquecer o pequeno-almoço aos malmequeres.


PS. Porque ela me confessou que preferia o "Ar" em lugar da "Terra", escrevi este poema. Realmente Ar e Terra, se complementam. Façam-se as bodas. Convide-se a "Água" e o "Fogo" para a festa do absoluto.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Terra

Querida Terra,
às vezes apetecia-me dormir contigo ao relento.

Tapar-me com um lençol de terra fina.

E apagar a Lua,
depois de arrumar o livro no arbusto junto à cabeceira.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Os destituídos da globalização

 Os destituídos da globalização - os que já tiveram e perderam e não os que nunca tiveram - encontram, em alguns momentos políticos distribuídos pelo Ocidente, o "canto do cisne" de um paradigma passado. Não há espaço num pequeno artigo de opinião para discutir: "o quê", "quem", "onde" e "porquê" perdeu ou ganhou. Os privilegiados calam-se, os prejudicados protestam, agem. No Ocidente, a maioria das pessoas perdeu condições, por via do nivelamento económico Ocidente-Oriente. O processo continua. A história não pára nunca, ainda que Francis Fukuyama tenha escrito, em 1992, o livro "O fim da história e o último homem", retratando o capitalismo como o derradeiro sistema económico da humanidade.  Falta porém uma dimensão espiritual mais profunda ao sistema capitalista. Há coisas que os racionalistas não conseguem bem explicar: a ética como forma estética da alma, a metafísica, a arte enquanto representação de um ideal platónico.

As pessoas andam desorientadas: em França, o eleitorado muda de opinião de eleições em eleições. Nos EUA, idem, ainda que o espectro político seja mais pobre que o francês. Ninguém tem muitas certezas. As pessoas andam à deriva. Os livros sapienciais da humanidade tornam-se cada vez menos populares ou interpretados de forma errada.

A história avança num processo de tese, antítese e por fim de uma síntese que se tornará depois nova tese, criando um ciclo contínuo. Tenho a sensação que a nova antítese será de natureza mística, ou seja, somos todos um. A vitória dos Verdes nas autárquicas francesas prenuncia essa perspetiva. Ou seja, apesar das nossas diferenças e interesses díspares, algo nos une. A Terra, por exemplo.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pinheirinhos, Malavado, Litoral Alentejano

Aqui em nenhures, ouve-se o rouxinol exigindo a noite, enquanto o vento canta nas mais altas ramadas dos pinheiros. Ao longe,  zurra o burro chamando o seu deus desconhecido. Tudo isto me encanta, tudo isto me é breve e longínquo como um deserto de areia e neve. Soube em tempos que a terra é redonda e gira como uma maçã na mão de quem pensa em trincá-la.

Agora esqueço tudo e caminho desamparado pelos regos que a chuva faz  quando cai sem controlo nas tardes de novembro. Pergunto aos bichos que dia é hoje e só a aranha me revela o segredo da sua esperança: que uma mosca vesga entre pela sua teia, que feche a porta, que apague os restos de luz que a lua nova se esqueceu de levar consigo.


Para além do amor

Para  a Fatinha

O que há depois do amor, do paraíso, da felicidade plena, da mais justa e brilhante recompensa?

Tu não és o amor, porque ele é coisa de livros, alfarrábios, filmes antigos.  

Tu és qualquer coisa que caiu e dilui-se dentro de mim. E agora flui do sangue às lágrimas, da carne desejosa dos lábios ao centro industrioso do peito.

Queria escrever-te com as pontas dos dedos em carne viva, com uma tinta rústica, inflamante.

Queria-te sempre sempre na minha boca pequena demais para o teu beijo.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A sombra ardente

Talvez sejamos apenas 
a última sombra
de uma misteriosa linhagem, 

aguardando que o zénite solar
nos devolva a essência desassombrada 
de uma missanga unida às outras
pelo fio primordial.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A beleza como elemento de perenidade cultural

Há uma tentativa biológica para a preservação de um código genético post mortem. Este artifício é comum à vida animal e vegetal. Porém, a humanidade agrega-se em torno de núcleos de informação constituída por uma linguagem simbólica que tende a tornar-se mais complexa ou a adaptar-se aos diferentes contextos históricos, sociais e geográficos. Também, a cultura aplica mecanismos de sobrevivência, onde o esforço tem como intuito a preservação de uma identidade colectiva ou individual.

A língua,  como mecanismo essencial para a manutenção de uma cultura no tempo, e os seus utentes, através dela, utilizam duas estratégias convenientes para a sua sobrevivência entre gerações e geografias diferentes: razão e beleza. Na primeira, a coesão da mensagem é garantida por uma lógica imanente aos pensamento humano e  também por uma oportunidade epistemológica. A beleza, suportada por convenções temporais, tem de encontrar um plano que lhe assegure a perenidade. Tratando de um conceito humano, ou pelo menos, utilizado nesse contexto, é nos elementos intrínsecos que ela se vale para sobreviver.

Para que o objecto, enquanto emissor cultural, se preserve tem de contornar padrões estéticos perecíveis e resultantes de diversas épocas e ficar fortemente dependente de um elemento mais estável e homogéneo do espírito humano: os sentimentos.

Os sentimentos, como resultado das emoções, tendem também a registar algum dinamismo no tempo e uma variação com origem no receptor. Cabe assim à beleza encontrar o menor divisor comum entre os receptores para manter-se perene e imaculada. 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Dois riscos

Dois riscos
na areia
junto ao mar.

Lado a lado
caminham indiferentes 
a qualquer destino comum.

A onda 
que vai e vem 
os apaga e une
à imensidão da praia.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Paixão

Era como se a dor se  tivesse esquecido de magoar, quando o algoz sacudia o chicote na minha pele.

O meu corpo encolhia até  ao limite ínfimo de não pertencer mais à alma que o carrega. Ainda assim, não parava o carrasco de sacudi-lo - "zás, zás" - alimentando de malvadez, os cínicos transeuntes.

Não pares, facínora! Daqui a nada encontrarás apenas o vento contra o vento da tua impiedade.



(English version by Google tradutor. It sounds good!)

Passion

It was as if the pain had forgotten to hurt, when the executioner shook the whip on my skin.

My body shrank to the smallest extent that it no longer belongs to the soul that carries it. Even so, the executioner did not stop shaking him - "zás, zás" - feeding the cynical passers-by with malice.

Don't stop, bitchy! From nowhere you will find only the wind against the wind of your wickedness.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

"Caminhar oblíquo" de Duarte Belo

Porque espero voltar a este livro, "Caminhar oblíquo" de Duarte Belo, de uma forma mais analítica e profunda, deixo aqui o primeiro trecho do livro dedicado à "ROUPA" que o autor-caminhante levou na sua travessia de Portugal. Este texto resume para mim a índole de Duarte Belo - a sua ligação ás coisas simples e essenciais, a sua ética, a sua forma de habitar. Aproveitem:

"ROUPA - Tenho algumas peças de roupa, sobretudo camisolas de manga curta que uso recorrentemente há mais de 20 anos. São peças puídas pelo tempo, com muitas marcas do quotidiano exterior. Foram muitas paisagens percorridas em serranias, vales, ou junto à orla costeira, muitas vezes num esforço considerável. As manchas ou "desenhos" impressos pelo uso são como um mapa dessas  viagens, uma interpretação oblíqua dos lugares visitados, das noites passadas ao relento dos campos. É um tecido construído por uma existência, reflexo do tempo que passa, reprodução, de alguma forma, de um corpo. Roupa velha, sinal de pobreza, a procura de uma existência mínima, determinação, perseverança, continuidade, resistências múltiplas. Também a fuga a determinados códigos sociais na procura da solidão para ir ao encontro de "toda a terra", dos lugares que falam, de uma natureza austera, avassaladora, fascinante, complexa. Procurar linhas de perplexidade. Dialogar com o medo. Vestir o despojamento"

Excerto de "Caminhar oblíquo" de Duarte Belo
Edição: Museu da Paisagem, Lisboa, 2020


quarta-feira, 10 de junho de 2020

A pedra

Preso, quase esmagado, 
por debaixo da pedra, lembrei-me:
não há difamação, 
apenas auto-censura.

Levantai a vossa pedra, irmãos, 
e confessai-vos.

terça-feira, 9 de junho de 2020

A propósito do poema "Cerco Invisível"

Quando escrevo poesia fico sempre com a sensação de produzir coisas banais. Mas é assim. Acho que ensaiamos a vida inteira o mesmo poema. Contudo ele vai surgindo fraco, fragmentado, equívoco. 

Escrevi este poema, "Cerco invisível", para dizer que estou cercado pela minha condição de poeta. Tentei vários expedientes, atividades, ocupações mas todas elas eram afinal versos do mesmo poema. Talvez seja uma epopeia homérica ou um haicai, poema japonês com 17 silabas apenas. Não sei. Apenas sei que só existe o que tem nome e por isso este cerco de palavras que nos envolve. Algumas das minhas, vêm de não sei onde? Escrever poesia é uma espécie de transe, em que o pensamento fica tomado por uma vontade de encantar, sublimar, inovar a linguagem. 

Eu não tenho a certeza se quero ser poeta, mas é inevitável sê-lo. Nem que para compensar tenha de comer mais vegetais, correr todos os dias ou aprender matemática. E tudo isto porque ninguém pode ser absolutamente poético. Temos administrar a poesia, como fazemos com tudo o que é bom, mas arriscado na vida. Temos de escrever às escondidas, não mostrar ao chefe, nem aos amigos da bola. Criamos a nossa rede de cúmplices do crime poético. Lemo-nos uns aos outros e às vezes, sabe Deus, como um frete. Mas é um tributo que prestamos. E se de facto a poesia é, para alguns, um culto perverso, pergunto porquê? Talvez pensem que as palavras não devam dominar os homens, mas o inverso. Talvez temam perder essa luta com as palavras.  E que elas por fim os encantem, como fazem as sereias, e os atraiam para a desgraça de se tornarem prisioneiros da beleza ad eternum.

Tudo isto para me/te explicar o tal poema. Estou cercado pela poesia. Não tenho saída. Resta-me caminhar com cuidado e atenção para não me deixar submeter, como escreveu o Milan Kundera, à "insustentável leveza do ser".

Cerco invisível

Espremo as palavras. 
Tiro--lhes o pus dos hematomas 
que me foram deixando pelo corpo.

Elas são a doença onde me curo,
ascensores ofegantes 
elevando-me aos pássaros 
para que caia de bruços sobre as pedras.

Não há como fugir do seu labirinto 
de sentidos já comprometidos. 
Não há como entregar as armas 
aos pés do inimigo. 

Nada há para além delas.
Porque o mundo foi tomado
pela paixão das palavras. 

E a única pergunta a fazer
é se a vida acaba ou não como um poema?

domingo, 7 de junho de 2020

Hoje vou à casa do meu pai

Hoje vou à casa do Pai. Tenho saudades do seu espírito terno que sempre me abraça, quando eu, derreado e ferido,  O procuro. Vou-lhe pedir que me perdoe por ser homem e por isso pecador. Vou-lhe dizer que não desisti, apesar das traições que lhe faço todos os dias. E que perdoe também aos seus filhos que, em seu nome, o traiem por ignorância ou medo. Bastaria conhecer as tentações que Jesus sofreu no deserto para entender que não devemos evocar o seu poder para: aumentar o nosso; saciar as nossas carências matérias; ou para o tentar, pedindo-lhe mais do que ele nos pode dar.

Tenhamos atenção e sejamos prudente, quando apelarmos ao Pai em nosso auxílio. 

Sejamos humildes, porque também Jesus Cristo foi o cordeiro de Deus.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Antepassados

Entro com os pássaros
dentro da casa lírica.

Abro o congelador
e tiro de lá
as memórias informes dos sentidos.

Não conheço ainda a sua língua
de sinais para mim desconhecidos.

Mas sei de antemão,
que há ruídos difusos,
névoas configurando bustos
e cheiros particulares
que me trazem até aqui a vossa ausência.

Sob a sombra da minha mão
desfilam letra a letra
o som imersivo das vossas ternas vozes
sussurrando a razão deste regresso inesperado.

domingo, 24 de maio de 2020

A doce revolta

Todos os dias se envenenam Sócrates.

Todos os dias se crucificam Cristos.

Todos os dias se fecham teatros para abrir circos.

Todos os dias se gaseiam inocentes.

Às vezes ao longe, outras defronte de nós,
todos os dias olhamos para isto,
enquanto comemos o nosso croissant. 

Aprendemos a viver assim.
Aprendemos a dormir  assim,
esperando acoitados 
que os deuses da fortuna não se lembrem de nós. 

sábado, 23 de maio de 2020

Ode à vida

     In memoriam Luiz Pacheco


Deixem entrar as moscas.

Abram as portas
para os vermes rastejarem
defronte da Smart TV.

Deixem  as canas crescerem
por detrás dos biombos chineses.

E que os fungos, ó senhorios,
vos pintem os recantos das paredes.

E que todos os pelos do corpo
se alonguem até à exaustão.

E que as barbas rastejem pelo chão
marcando um rastro de serpente
sobre o pó lamacento do hall.

Deixem cair o telhado
e vejam as estrelas.

Entrelacem os membros
dentro da cama húmida
num puzzle de suor e germes
que também são vida, caramba!

E quando os javalis e as estevas
partilharem a cozinha
e os gamos e os cavalos raparem
os últimos vestígios do jardim,
estás livre.

Nasce outra vez.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

A canção do prado



"Eis o prado", disse Pilatos
antes do verão ao resto do povo.

"Eis os pássaros
 lavrando com o vento 
e semeando com o pó
uma seara caótica de flores e  sóis",
disse-lhe à noite a mulher de Pilatos,
quando estavam a sós.

"Eis um cavalo
prenhe de pólen
ruminando com tempo
largos tapetes de estrelas e caracóis",
disse pela manhã um velho mercador
vindo de Jericó.


domingo, 17 de maio de 2020

O diluvio da primavera

Hoje, no jardim do vento, tudo se aquietava como numa fotografia antiga. Os prados tinham engolido os canteiros municipais e uma águia reinava nas esquecidas rotas comerciais.

Ao longe, Noé refazia mais uma vez a Arca com tripas e peles de um tanque de guerra abandonado. Enquanto um cavalo alado com asas de cotovia esperava calmo pelo fim da empreitada bíblica.

A Este, um rumor se agigantava. Era o diluvio da primavera que se anunciava, caudaloso e imparável, como um delírio sagrado. 

terça-feira, 12 de maio de 2020

O caminho

Tenho um mestre que me alumiou a caverna da alma, permitindo-me ver como é clara e acolhedora aquela gruta. Vejo agora  como a escuridão havia escondido tantas galerias maravilhosas, quantos recantos aprazíveis. Outrora a luz difusa que penetrava na caverna, criou-me muitos mal-entendidos. Apenas agora posso ver e compreender a razão dos meus erros, a percepção deficiente das formas, dos trilhos, os movimentos circulares da antiga caminhada que não me levava a parte alguma. Afinal era tudo simples e eu teimava em seguir as veredas da paixão, esquecendo as do amor.

O mestre avisou-me que o caminho simples, não é fácil, mas proveitoso. É uma viagem com obstáculos, cruzamentos, dispersão, atracções que nos apelam a parar. É preciso coragem, confiança e muitas vezes paciência e humildade para concluir que estava outra vez na direção errada e que devo regressar ao troço anterior.

Jamais faria esta caminhada sozinho. Não seria capaz sem a ajuda dos outros e porque gosto também  de partilhar com os companheiros as galerias que encontro: silenciosas e de uma transcendência a perder de vista.

"O caminho não é fácil" é a frase que lateja na cabeça, como uma cefaleia. Porém, tenho a intuição que vale a pena. Sobretudo quando olho em meu redor e sinceramente não vejo outro melhor.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Temporis aeterni

Onde está a vida? Para a frente ou para trás? Procuro a verdade na revoada dos pássaros, sem saber se chegam ou partem. Continuo ignóbil. Parece-me que apenas existe este momento em eterno movimento, pois ele é tudo, quando no olhar atento do perdigueiro se reflecte. De que são feitas  então a lembrança e a esperança? Serão vasilhas vazias, onde guardamos as sobras da água à espera que evaporem?

"Carpe diem" - "Aproveita o dia" - lembrou-nos um epicurista, sabendo de antemão de que não valeria de nada guardar o pão, o vinho e o circo. E que o bolor e o azedume são a vingança dos deuses para quem por estratégia ou avareza decidiu guardar o dia de hoje para depois de amanhã.

Dancemos, então.


Nota: "Temporis aeterni" (latim) significa "O momento eterno".

domingo, 10 de maio de 2020

A origem

Nada do que escreves é teu.

Tudo se afasta e retorna
como o som ofegante
de quem respira cansado
de fugir.

Se ainda não sabes ao certo
de onde te chegam as palavras,
abriga-te, então.

Vais ter de esperar
para saber se vais ou vens
da nascente.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

A felicidade das pedras

Sei que finda  toda a esperança, 
na revolta poderia reerguer-me.

Mas fecho-me
dentro das próprias pálpebras 
tentando na fatalidade entender
porque são felizes as pedras,
mesmo com o coração cheio de penas. 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dia infinito

Sabemos que só temos este dia, por enquanto.

Ele será a luz e as trevas,
o maná e a fome,
a esperança e a angústia.

Sabemos que só temos um dia por dia,
uma rumorosa volta em torno do universo.

Contemplemos então o infinito. 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Gostas do silêncio ou da poesia?

"Words are trivial
 Pleasures remain
 So does the pain
 Words are meaningless
 And forgettable"

(Depeche Mode em "Enjoy the Silence")

O primeiro estado do amor, a paixão, produz naquele que ama uma representação platónica do ser amado. Entre o signo (significante) e o símbolo (significado) ocorre uma projeção do primeiro para o segundo. A incerteza do retorno desta projeção - ou seja, o que acontece ao ser amado quando toma conhecimento do estado de consciência daquele que ama - é de uma grandeza proporcional ao grau da paixão. Os grandes amantes - porventura aqueles que melhor registaram as impressões, os sofrimentos ou entendimentos que derivam deste sentimento - fazem perdurar o estado amoroso num espaço físico que não se confina ao objecto amado e num espaço temporal que extravasa a duração da relação uni ou bilateral.

"e sinto tanto bem só na memória
  de vos ver, linda Dama, vencedora,
  que quero eu mais que ser vossa a vitória?

 Se tanto vossa vista mais namora
 quanto eu sou menos para merecer-vos,
 que quero eu mais que ter-vos por senhora?" 

(Luís Vaz de Camões em "Aquele mover de olhos excelentes")



Mais do que o conhecimento  científico sobre esta matéria, o  qual confesso nunca ter lido, foram os poetas que sublimaram o amor platónico, o amar a coisa por si própria independentemente de serem ou não correspondidos, de ser ou não o amor frutífero.

"Mas sabia e sei que um dia não virás
 que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
 ou até se exististe ou se eu mesmo existi
 pois na dúvida tenho a única certeza
 Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?"

      (Ruy Belo em "Muriel")
.

Nos antípodas desta lógica amorosa está a necessidade de materialização, quando o acontecimento ganha relevo ante sentimento. Analisando estes dois pólos que designam o  amor como um ato ou uma vontade, fica-se na dúvida qual deles será o mais humano, o mais genuíno, o menos onanista ? Numa primeira abordagem, o que se materializa oferece prazer, conforto, afecto, supostamente em ambos os sentidos. Mas pode também este ser egoísta, e na medida em que  se concretiza e edifica,  erradicar e destruir  outros laços estabelecidos anteriormente pelos amantes na complexidade afetiva e social em que se movimentam. A literatura nascerá aqui como uma terceira via, um espaço alternativo onde a paixão não passando de um ensejo ou idealização, acaba por se afirmar definitivamente sem se concretizar. Assim este entendimento e sofrimento concorrem para um lirismo, tão vulgarmente denominado de delírio. Se valerá ou não a pena, apenas o poeta o saberá.

"A causa, enfi, m'esforça o sofrimento,
 porque, apesar do mal, que me resiste,
 de todos os trabalhos me contento;
 que a razão faz a pena alegre ou triste."

(Luís Vaz de Camões em "Aquele mover de olhos excelentes")


domingo, 3 de maio de 2020

Amor

Amor:
Que suave encantamento!
Que transe doce e ledo ele nos traz!
Claro que podemos amar sozinhos, 
Amar pelos dois.
Por que o amor é só um pensamento.
Nada mais.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

«Memórias» de Raul de Brandão

"Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo nada até morrer - desaprendo até morrer. Não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas. O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo..." 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Quarentena - II

À noite,
Quando me deito
Escolho um sonho entre as lembranças 
E construo com ele o tal mito 
Em que acredito ser eu próprio. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Quarentena - I

Hoje não tirei o pijama. Trabalhei com ele o dia todo. Quando a tranquilidade possível - numa cidade como  a Amadora- chegou, fui até à janela, olhar um renque de árvores que vivem do outro lado da linha férrea.

"Qualquer dia, cortam-vos." - pensei eu, aborrecido com o abate de árvores que o município tem promovido em algumas zonas.

É o preço da imobilidade, a desvantagem  de quem não pode fugir, a inércia semelhante àquela que um pijama velho e gasto traz ao corpo.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Parado

Insone e atento
aos reflexos nas vidraças,
aguardo o instante
em que o ribombar do trovão 
ou tão só a notificação digital 
dar-me-á o sinal que o mundo mudou
e eu não. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Do sotão dos moleskines

Perdidos no tempo e em velhos moleskines - que empilho onde calha na secretária - releio agora alguns desses poemas, neste tempo de quarentena:

Dedilho as vagas
como cordas de uma arpa
procurando o meu par
no fundo do mar.

O que se passa? Não sei.
Talvez o destino o lançasse
às água profundas
de uma chávena de chá.



quarta-feira, 8 de abril de 2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Ninho abandonado

















Ao Pietro e a Beatrice


A casa está só,
oca, noz desmiolada

O sangue fluiu 
pela mesma fresta 
onde o frio entra agora

A cal das paredes caiu
porque eram as asas dos anjos
que a escoravam intacta 

Os tectos refletem  apenas
o ocre velho
dos corações maduros

E até a fruta perdeu 
aquela acidez benfazeja
das coisas novas e nubeis

Levaram o calor
que  a raiz leva à flor
sem lhe pedir mais nada
que o primeiro odor da madrugada 








sexta-feira, 6 de março de 2020

O jardim

Passaram apenas cinco anos e o jardim perto da minha casa, outrora bem definido por uma arquitetura de canteiros, é agora um campo quase silvestre. As ervas e as urtigas cresceram com vigor e entregaram os planos paisagísticos ao arbítrio da teoria ou lei da evolução das espécies. Mais fortes ou adaptadas, as espécies autóctones tomaram conta do espaço, confinando as mais civilizadas a pequenos núcleos. 
E não há filósofo, juiz, padre ou engenheiro capaz de deter a ordem natural das coisas. Assim seja.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Sobreviver

Numa reunião/formação de professores lá na escola, a formadora perguntou a razão que nos movia para dar aulas. Todos os professores tentaram encontrar motivos para fazê-lo: houve argumentos altruísticos, pessoais, politicamente correctos, humorísticos, profissionais. Contudo, houve um que me deixou a pensar. O professor disse que a sua razão para dar aulas era "Sobreviver". Naquele momento, pareceu-me que ele estava a tentar chocar ou evidenciar-se. No dia seguinte, aquela motivo não me saía da cabeça. Era  básico e animal, mas também me parecia agora o mais sincero e profundo. Agora, ao analisar todas as outras respostas, mudei de opinião e todas elas me pareciam invenções, tentativas de nos enganarmos a nós próprios ou de iludirmos os outros. Sobreviver era a causa primeira. Porque o homem quando idealiza, entende que a realidade fica sempre aquém do ideal. Então, faz o que pode para sobreviver, na esparsa esperança de dia a dia se aproximar dessa ideia que criou, como destino ou missão, para si mesmo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Instagrama

raizes, pedras,
restos de unhas de cotovia
dispersos pelo jardim

ervas, paus,
casas minuciosas, 
pontes de sol e terra

fios de seiva,
outras águas pequenas, 
sem sabor, nem fim

cantigas de fadas
na voz dos anjos
de cima para baixo
como chuva ou ordens 

tudo imóvel, 
instantâneo, 
amoral, natural,
sem não, sem sim


Jardim da Aroeira, 9 de fevereiro de 2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

outros tempos

Subiamos às árvores.
E lá em cima, viamos o futuro,
quais druidas modernos.

Não haviam chefes de tribo
e as tristezas afundavam-se
nos labirintos que as formigas 
esculpiam chão abaixo. 

Era o tempo em que tínhamos só um nome
com a sua máscara admirável. 
E tudo era apenas uma manhã, 
um sol invicto e expoente.

Certo dia ouvimos o piar sobressaltado 
do pássaro negro que fugia para a frente.
Fomos inquietos atrás dele.

Era já tempo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Palavras-Gato

As frases mais belas eram sobre amores impossíveis.

E só por isso se moveram na fronteira entre o silêncio
e o que apenas pode levemente existir. 

Eram Palavras-Gato.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

domingo, 19 de janeiro de 2020

à espera do equinócio

"Também esta cabana de colmo
se há-de transformar
em casa de bonecas"

 Bashô (Poeta japonês do séc.XVII)


Espero que a centelha
se abrigue em parte soalheira do abrigo,
enquanto o vento acossa
os ramos rígidos da certeza,
aflige os barcos
e assusta o bando das gralhas,
fazendo-as voar até à boca da invernia.

Espero quieto pela primavera,
pelas cores olorosas do rosmaninho
e da lavanda.

Espero girando,
como o pipo da roda da bicicleta,
que se cumpra o ciclo caridoso das estações,
para partir, vagabundeando
    atrás das nuvens que agora vejo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O bobo da corte

Às vezes, via a estrada, fechava os  olhos e fingia que partia. Mas uma curva apertada a uns cem metros de mim, toldava-me a visão e deixavam para a intuição o resto da vida. Ansiava por tomar aquele caminho incerto, mas não ousava, como uma mula adulta que não esquece a cama de feno que a espera no estábulo. Devia fechar os olhos e saltar, como um para-quedista se lança para um campo de guerra, mas negava o meu corpo às balas.

Cada mulher era a haste de uma videira. E a  vida um carreiro de formigas indeciso por não saber em qual delas estaria o cacho das uvas mais doces.

Havia o passado, esse lastro que garantia a estabilidade do navio, sem contudo o deixar navegar à velocidade desejada pela ambição desmedida. Havia as árvores que sabiam esperar as estações, de forma firme e curiosa. Havia os gatos que me seguiam com o olhar. Seriam eles deuses atentos ao destino das suas criaturas ou apenas pequenos mamíferos conscientes das suas fragilidades ?

Perguntava: Onde estaria a esperança? No ficar ou no partir? Talvez pudesse partir, ficando. Poderia fingir que era o bobo dos deuses: o único, que entre a corte do Olimpo, podia dizer ironias sobre o tempo e o espaço, como se a minha vontade fosse absoluta e eterna.



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