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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ensaio sobre o limite inacabado

E se o tempo não passasse.
E se avançasse eu apenas pela transparência das coisas
como um anjo ou fantasma,
tornando-me agora, só por agora,
um elemento conexo e emergente
dessa paisagem fictícia
que ora cresce ora mingua,
sob este olhar precoce
que às vezes pela manhã me inquieta.

Por momentos deixo a morte.
Troco-a pela palavra fim.
Como se a vida fosse um quadro
onde as veias e o futuro
dessem lugar a dimensões geométricas
desenhadas, modeladas
por uma mão maior
- que movida por um braço que tudo abraça -
traçasse diante de mim e em linhas convergentes
 o provir silencioso das horas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Esperança

Depois de ver "Toutes le matin du monde" de Alain Corneau


Está escuro.
Nada mais digo.
E sem ruído, deixo-me levar
pela promessa da janela 
- qual varejeira , em vôo incerto,
procurando o destino que se insinua
na escuridão do pleno dia.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Poupança

ao Padre Tolentino Mendonça



Só um poema basta
Só uma palavra
Só um pingo de sombra
desinquietando a luz do meio-dia

Só uma folha
manuscrita com os olhos
Só o tic-tac do despertador
a marchar pela casa vazia

Só uma gota basta
Só uma
se escorrer sem pressa para a fresta da sede 
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