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sábado, 24 de novembro de 2018

A queda dum anjo



Vários amigos, falavam de "A queda dum anjo" de Camilo Castelo Branco como uma sátira à política, mais concretamente à corrupção dos bons valores de todos aqueles que entram na política por fortes convicções morais e cívicas e acabam por não resistir às tentações do poder, de ter uma audiência privilegiada e uma crescente capacidade de influência. Este arquétipo adapta-se bem ao cidadão brilhante que nado e criado nas zonas afastadas das principais urbes chega à cidade para influenciar, para que a sua vontade seja levada em conta entre aquelas que dirigem o rumo do pais. Os exemplos em Portugal são imensos e mesmo quando esta migração "Campo-Cidade" não é física mas sim cultural, porque a migração física terá sido efectuada pelos progenitores que trouxeram do ambiente provincial um sistema de valores que estruturam estes novos citadinos. Assim de repente, lembro-me de António Guterres, José Sócrates, José Hermano  Saraiva, recentemente - mas a história politica e cultural portuguesa está repleta de personalidades que trazem esta força de vencer da chamada "província" para a capital. Calisto Elói - personagem principal do romance de Camilo - agrega esses valores e destino. Tem convicções fortes e decididas sobre matérias como o luxo, a política e sobretudo sobre a forma de estar a vida. Em contacto com uma realidade mais complexa que invade a sua vivência diária, os seus valores alteram-se e este facto manifesta-se tanto no seu pensamento político - de conservador-legitimista torna-se um liberal-progressista - como na sua forma de vestir, fumar ou orientar a sua vida sentimental.

É precisamente, neste âmbito que discordo de todos aqueles amigos que me falam na corrupção do carácter do Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas. Ele não quebra, mas sim evolui. Vinculado a um pensamento estanque e estéril, oriundo de um casamento sem amor efetuado em Caçarelhos com a sua mulher, D.Teodora de Figueiroa, encontra na cidade o amor e o prazer pela vida. Mas não perverte os seus princípios de verdade. Apenas se afirma com a mesma frontalidade e coragem  que  antes defendem uma conduta conservadora e baseada no estudo dos clássicos - livros onde se alienava em parte do tédio de um casamento sem paixão - numa nova vida com paixão, beleza e descendência (dois filhos).

Este romance de Camilo será um momento de transição literária entre o romantismo para um romance realista e ao mesmo tempo satírico ao jeito de Eça de Queiroz. O que me fascinou foi realmente para além de todo o humor satírico com que descreve a paisagem da política parlamentar portuguesa, aquele final onde o amor ao belo e à vida se sobrepõem às caquécticas estruturas de uma outra visão da vida - teimosa e teoricamente pura, mas na verdade estéril e alienada. 
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