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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ensaio sobre o limite inacabado

E se o tempo não passasse.
E se avançasse eu apenas pela transparência das coisas
como um anjo ou fantasma,
tornando-me agora, só por agora,
um elemento conexo e emergente
dessa paisagem fictícia
que ora cresce ora mingua,
sob este olhar precoce
que às vezes pela manhã me inquieta.

Por momentos deixo a morte.
Troco-a pela palavra fim.
Como se a vida fosse um quadro
onde as veias e o futuro
dessem lugar a dimensões geométricas
desenhadas, modeladas
por uma mão maior
- que movida por um braço que tudo abraça -
traçasse diante de mim e em linhas convergentes
 o provir silencioso das horas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Esperança

Depois de ver "Toutes le matin du monde" de Alain Corneau


Está escuro.
Nada mais digo.
E sem ruído, deixo-me levar
pela promessa da janela 
- qual varejeira , em vôo incerto,
procurando o destino que se insinua
na escuridão do pleno dia.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Poupança

ao Padre Tolentino Mendonça



Só um poema basta
Só uma palavra
Só um pingo de sombra
desinquietando a luz do meio-dia

Só uma folha
manuscrita com os olhos
Só o tic-tac do despertador
a marchar pela casa vazia

Só uma gota basta
Só uma
se escorrer sem pressa para a fresta da sede 

sábado, 24 de novembro de 2018

A queda dum anjo



Vários amigos, falavam de "A queda dum anjo" de Camilo Castelo Branco como uma sátira à política, mais concretamente à corrupção dos bons valores de todos aqueles que entram na política por fortes convicções morais e cívicas e acabam por não resistir às tentações do poder, de ter uma audiência privilegiada e uma crescente capacidade de influência. Este arquétipo adapta-se bem ao cidadão brilhante que nado e criado nas zonas afastadas das principais urbes chega à cidade para influenciar, para que a sua vontade seja levada em conta entre aquelas que dirigem o rumo do pais. Os exemplos em Portugal são imensos e mesmo quando esta migração "Campo-Cidade" não é física mas sim cultural, porque a migração física terá sido efectuada pelos progenitores que trouxeram do ambiente provincial um sistema de valores que estruturam estes novos citadinos. Assim de repente, lembro-me de António Guterres, José Sócrates, José Hermano  Saraiva, recentemente - mas a história politica e cultural portuguesa está repleta de personalidades que trazem esta força de vencer da chamada "província" para a capital. Calisto Elói - personagem principal do romance de Camilo - agrega esses valores e destino. Tem convicções fortes e decididas sobre matérias como o luxo, a política e sobretudo sobre a forma de estar a vida. Em contacto com uma realidade mais complexa que invade a sua vivência diária, os seus valores alteram-se e este facto manifesta-se tanto no seu pensamento político - de conservador-legitimista torna-se um liberal-progressista - como na sua forma de vestir, fumar ou orientar a sua vida sentimental.

É precisamente, neste âmbito que discordo de todos aqueles amigos que me falam na corrupção do carácter do Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas. Ele não quebra, mas sim evolui. Vinculado a um pensamento estanque e estéril, oriundo de um casamento sem amor efetuado em Caçarelhos com a sua mulher, D.Teodora de Figueiroa, encontra na cidade o amor e o prazer pela vida. Mas não perverte os seus princípios de verdade. Apenas se afirma com a mesma frontalidade e coragem  que  antes defendem uma conduta conservadora e baseada no estudo dos clássicos - livros onde se alienava em parte do tédio de um casamento sem paixão - numa nova vida com paixão, beleza e descendência (dois filhos).

Este romance de Camilo será um momento de transição literária entre o romantismo para um romance realista e ao mesmo tempo satírico ao jeito de Eça de Queiroz. O que me fascinou foi realmente para além de todo o humor satírico com que descreve a paisagem da política parlamentar portuguesa, aquele final onde o amor ao belo e à vida se sobrepõem às caquécticas estruturas de uma outra visão da vida - teimosa e teoricamente pura, mas na verdade estéril e alienada. 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Um certo caos

A sala de espera estava pintada com o mesmo azul cobalto
daquele Tejo encrespado dos dias encobertos.

Os números das senhas de espera saltavam urgentes e vazios
sem que ninguém os reclamasse.

Um telemóvel tocou e uma senhora atendeu e perguntou:
"Leste o que escreveste ?"

Chamaram entretanto a minha senha. Chegara a minha vez.
A minha vez de quê?


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

(in)adaptação

Henrique, conhecido apenas por mim como o bom gigante, enviou-me uma mensagem alertando-me para a dificuldade que passam  alguns *Mbunas durante a adaptação  às condições dos novos aquários. A acidez e a dureza da água atingem valores aos quais alguns não resistem, escreveu-me ele.

*Mbunas - Peixe das rochas, em idioma Tonga, falado no norte lago Malawi, Africa.

Preâmbulo da "arte pobre"

O Bruno alertou-me para as contingências da arte pobre, onde um convicto artista,Piero Manzoni, desta corrente, enlatou próprios excrementos, convencendo depois algum publico de que se tratava de uma obra prima.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Ansiolítico

Esta é uma poesia mansa, a meia-idade, a luz possível num dia chuvoso. É um chá com pouco mel que se retarda na garganta ressequida do trovador, enquanto  procura a melodia na indiscriminada pauta do bocejo.

Esta é uma cantiga demasiado interior, até mesmo para aqueles que nos escutam pelos olhos e se acumulam na casa velha, deitados sobre o pó que, em ascese, levita.

Esta é a poesia manuscrita numa margem carcomida, quando a tarde cai de costas e arranca o cenário onde as estrelas foram cosidas  por umavelha costureira.




Nota: Encontrei dispersos por muitos cadernos de apontamentos iniciados em 2016, um conjunto de poemas que começo hoje a publicar aqui.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A voz da selva


No livro "Apelo da Selva" de Jack London, um cão de guarda estimado pelo seu dono, juiz norte-americano, é raptado e vendido a prospectores  de ouro do Alasca. A partir desse instante a sua vida altera-se radicalmente. Confrontado com múltiplas adversidades, Buck, assim se chama o cão, vê-se obrigado a lutar para sobreviver. O sofrimento do paraíso perdido, da hipotética injustiça, da inevitabilidade das lutas tornam, Buck, um cão diferente. Desenvolve uma  personalidade  confiante crescente, tendo esta como estrutura base, a luta pela sobrevivência. A pergunta que subsiste na consciência do leitor é a seguinte: Buck transforma-se impulsionado pelas contingências da nova vida ou retorna à sua condição ancestral, neste caso, de um selvagem ?

Jack London sabia que a vida era dura.  Mesmo assim não resistiu e parece que  se deixou  vencer pela melancolia. Que importa,  Jack, todos, mais cedo ou mais tarde, nos deixamos vencer por ela. Normalmente apenas lutamos quando vale a pena. Quando a voz da selva ecoa no nosso desejo e desafia-nos até ao limite da derrota ser incurável.





quarta-feira, 5 de setembro de 2018

domingo, 19 de agosto de 2018

Não se pode voltar a nenhures

Não há regresso à infância, porque ela nunca lá esteve enquanto jardim de inocência e prazer. O que existe é a sua sombra e só um poema pode espreitá-la, se vestido de penumbra e displicência. 

domingo, 5 de agosto de 2018

"Conto de Verão" de Éric Rohmer




O "Conto de Verão" de Éric Rohmer fala da fragilidade das relações que se estabelecem entre jovens numa estância balnear na Normândia - França. Gosto deste filme, porque gosto de princípios, de ver nascer, dos primeiros passos ainda que todas estas coisas sejam incipientes e algo atabalhoadas. O que faz andar a história (a peripécia) é a hesitação de um rapaz que divide a sua atração por três raparigas: uma amizade-colorida, uma com "nariz-arrebitado" - a namorada oficial - e, por último, uma outra que transpira erotismo e diversão. Como é sabido nestas coisas do amor ninguém gosta de repartir nada e o rapaz acaba por ficar sem nenhuma delas. Ele porém não se mostra especialmente aturdido com o desenlace e regressa à sua cidade mais interessado em comprar uma nova guitarra do que resolver aquele nó-górdio.  Alguns filmes de Rohmer são assim. Imitam a vida no que ela tem de mais descartável. Tudo parece muito importante enquanto decorrem os diálogos - e os diálogos franceses são tipicamente tensos e argumentativos -  mas tudo é afinal como a espuma dos dias. E como dizem os jornais, o verão é uma estação tonta. Talvez por isso é que gostamos dela.

sábado, 4 de agosto de 2018

A subida às árvores

Acabei de ler "O Barão Trepador" de Italo Calvino. Tinha-o na prateleira há anos e por acaso regressou-me às mãos. Calvino relata a vida de um rapaz que se revolta contra o facto de o pai, Barão de Rondó, o obrigar a comer caracóis. Na verdade, os caracóis são apenas um motivo caricato, para o choque histórico que já se vislumbra: as revoluções liberais, o republicanismo francês, a revolução francesa e os seus ideais e por fim Napoleão. O romance fantástico decorre essencialmente na Itália do século XVIII - dominada pelos Habsburgos da Áustria. O jovem barão representa um novo sentimento: aquele que está mais perto do natural e por isso a sua revolta expressa-se em subir às árvores e passar a viver por lá sem descer nunca ao chão - prodígio da imaginação de Calvino e de uma Europa  de bosques contíguos de árvores ainda e apenas europeias. Em cima das árvores, vive romances, cultiva o espírito motivado pela onda de curiosidade trazida pelos Enciclopedistas, dá corpo e voz aos movimentos de emancipação dos povos e acaba na desilusão de Napoleão. Como é habitual a revolução não cumpre inteiramente as suas premissas, mas produz mudanças irreversíveis na política europeia mesmo sem cumprir a "liberté, equalité et la fraternité". Cosimo, assim se chama o barão romântico, acredita radicalmente nesses ideais e expressa-a de forma desabrida.

Nos momentos de transição, os homens ficam desorientados, não sabem para onde se dirigir, nem que conselhos dar aos filhos. O futuro está enublado e ninguém o consegue cingir. A decisão de Cosimo é uma decisão de ruptura, nunca entendida pelo pai, mas respeitada.
As civilizações acabam muito antes de desaparecerem. Talvez a nossa esteja a desvanecer para que outra possa enquadrar a Europa. Acredito que sim. E espero que como Cósimo possamos viver se não exclusivamente, pelo menos mais perto das árvores.

Há mais de 10 anos chamei a este diário "Árvore com voz". A voz era provavelmente de Cósimo, o Barão Trepador.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Entre margens

"Sabes que o meu sonho foi sempre uma cozinha nova", diz-me ela.

"Queremos um clube futebol democrático", dizem eles.

Cândidos desígnios, os nossos.

As lágrimas afloram-me, mas secam-se logo contra os raros grãos de luz que vigiam este meio-dia de um julho sombrio.

Caminho entre margens - e talvez não seja por acaso que tudo isto acontece na lúgubre e  humana Almirante Reis. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

Praia

despertei o que não sabia calar
e mais nada me resta, senão
caminhar
com a maçã de adão entalada
entredentes
ao encontro do sol
que cai insustentável por detrás do mar

sei então o que é o silêncio:
o frémito das  asas das aves
voando em  bando
para onde o céu teima em desaguar
para onde corre aquele rio que não sabe parar

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Meditação

És para mim um pensamento ainda tão esquivo. Quando falo de Ti,  parecem-me sempre escassas as palavras. Quando falo de Ti, sinto-me um inocente traidor. Saibam ao menos os meus atos e olhares indicarem aos outros uma pista recente para a Tua excelsa presença.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Rua da Saudade

Foto do topónimo da rua de acesso ao cemitério de Belas


De regresso a Belas, fui caminhando pelos seus caminhos magníficos. Os mais altos, no cimo do vale, entregam-nos uma vista maravilhosa. Os mais resguardados, dentro da núcleo central da vila, levam-nos a um passado burguês e campal. Levam-me a mim, especialmente, ao início da minha vida de casado. O último percurso partia dos célebres fofos de Belas até às portas do cemitério e chamava-se Rua da Saudade. Caminhando etapa a etapa lá fiz a sua subida e este poema:

I

a água da fonte
recorda o chilrear do chamariz
quando de súbito se calou
e voltou
ao infinito da memória

II

como se possível fosse
percorro o passado
à procura de um desvio ou atalho
que me permita regressar à visibilidade

III

cambaleio num labirinto
ou danço com a tua ausência
a valsa transparente da saudade ?


IV

no final da estrada
lá está a carreta funerária
sedutora e pacífica
como um banco de jardim
que por mistério ou misericórdia
não é ainda para mim

terça-feira, 29 de maio de 2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mater

Abre a boca
e deixa entrar o sol.

 
Espera, como um botão de rosa,
o espreguiçar da primeira pétala.

E finalmente grita entre dentes
um cardo que dê sombra
à ousada perfeição do escaravelho.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Prometeu

O mito de Prometeu e Pandora - Christian Griepenkerl (1839 – 1912)
Prometeu era um titã, uma entidade capaz de enfrentar os deuses - algo impossível ao comum dos mortais. Ele roubou o fogo aos deuses para o dar aos mortais. Porque o fez, não sei. Talvez por vaidade, talvez por estratégia no confronto que oponha os deuses aos titãs na mitologia grega. Ninguém o disse. O profundo conhecimento do subconsciente das personagens chegou muito mais tarde, num período chamado pré-modernismo ou realismo psicológico. Há quem diga que aparece pela primeira vez no romance "Preto e vermelho" de Sthendal, mas isso não vem agora para a história de Prometeu. O fato é que este levou o calor, a luz, o combustível aos mortais, encurtando as diferenças entre os homens e os deuses.

Na tragédia grega, o herói é sempre vítima de si mesmo. Só assim o teatro se torna moral. Prometeu terá sido também vítima do seu carácter. Esses mesmo traços de personalidade que dão e retiram vantagem arbitrariamente, porque o tempo não pára para ninguém, nem mesmo para quem vive no Olimpo.

Zeus temeu que os mortais ficassem tão poderosos como os deuses e puniu Prometeu. Acorrentou-o na escarpa de uma montanha no Cáucaso, onde todos os dias uma águia lhe comia o figado, esse mesmo que regenerava no dia seguinte para voltar a ser debicado complemente. Não tenho lembrança de pena tão cruel e prolongada no tempo. Talvez Zeus quisesse que o seu castigo servisse de exemplo para aplacar futuros atrevimentos. Acho que não foi suficientemente dissuasor. De vez em quando surge um privilegiado que por vaidade ou sentido de justiça ou ambas as coisas - porque a justiça e a vaidade andam às vezes juntas - rouba o fogo aos privilegiados e o entrega aos outros. Não é uma tarefa fácil. Quem o faz será sempre lembrado como herói por uns, como um vilão por outros.

domingo, 29 de abril de 2018

Como subir da morte para a vida ?

Orfeu foi regastar Euridice ao mundo dos mortos, reino do deus Hades. Uma das premissas do resgaste era que ela não olhasse para traz durante a fuga e ela olhou. Assim, por lá ficou Euridice eternamente, restando a Orfeu, a sua lira e os seus poemas para estar com a sua amada - em espírito, tão só.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Poemas de graça - O malmequer e o robot

O cheiro do malmequer
dá-me prazer
Ainda bem que não o posso comer

O malmequer tem a liberdade
das  coisas inúteis

Pai, fazes um robot igual a mim ?

Poemas de graça - A gata

A gata tem graça
e uma fragilidade insubmissa.

Quanto se cansa de descansar,
descansa.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Gatela - uma janela de gatos

Janela de granito no centro de Salvaterra do Extremo - Foto Luís Palma Gomes


Salvaterra do Extremo, Páscoa de 2018

A passagem da páscoa (Judaico-Cristã) na Beira Baixa deixava-me sempre poemas, fotos, desenhos, contos e prosas para mais tarde recordar. Desta vez não. Por isso, vinha um pouco menos feliz. Não escrevera, não desenhara, não fotografara. Com mil raios e coriscos, estaria a ficar velho? Se calhar os 50 anos secaram-me o espanto pelo mundo ? Outrora, mesmo quando partia, para a aldeia, seco pela urbe, parecia-me renascer a curiosidade e a inspiração quando chegava àquele sortilégio de cheiros, cores, paisagens e sobretudo àquele tempo vagaroso - mais parecido com  o de Deus ou pelo menos mais humano. Ter-se-ia banalizado também aquele espaço e aquele tempo ?

Hoje, deu comigo a olhar para as fotos do telemóvel, quando encontrei esta pequena maravilha que me havia esquecido. Estavam lá muitas coisas que me fazem lembrar a aldeia: o granito, os gatos de pelo queimado, a gamela da comida atada por uma guita, a janela, aquela luz antiga. Que bom poder recordar a Páscoa de 2018. Na Páscoa de Salvaterra do Extremo, onde as tradições judaico-cristãs teimam em subsistir, entende-se melhor o conceito da "ressuscitação" ou do "renascimento". Por isso, aleluia.


Histórico de posts de Saltaterra do Extremo (Clicar aqui)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

páscoa prematura








também
não vos quero antecipar
o prazer de ouvir o riso dos pássaros
quando entram nas novas folhagens

essas palavras
poderiam por acaso levar-vos a renascer
fora do tempo
sem que tenhais
ainda dado os necessários passos da paixão

segunda-feira, 26 de março de 2018

Questionário

E quando a máscara se enraizar no ser ?

E quando o ser, exangue, denunciar a máscara ?

E quando nos cair em cima a estátua que construimos de nós mesmos ?

E quando o vento que trouxe o pó que somos, levar o pó que éramos ?



segunda-feira, 12 de março de 2018

O sentido e direção vetorial da cruz

A propósito deste tempo de espera e quaresma a que chamamos Páscoa ("Passagem"), devemos refletir sobre o símbolo da cruz. Se ela representa um veículo que nos faz ascender ao paraíso, à vida eterna, à redenção depois de redimidos os nossos pecados e culpas com sacrifício da vida de Cristo? Ou pelo  contrário, se será ela um veiculo que desce do Céu  à Terra, para nos demonstrar o amor do Pai que sacrifica o seu filho por amor à humanidade ? Em muitas passagens bíblicas, Jesus vem à procura dos aflitos, dos doentes, dos sofredores para os aliviar e curar. Creio que também encontramos aqui a resposta para a pergunta sobre a cruz. Ela procede, em sentido descendente, do Pai que ao sacrificar o seu filho, nos revela todo o seu amor por nós. E quanto a nós, apenas nos resta o simples gesto da nossa ínfima, mas sincera, gratidão pelo seu amor. Boa passagem para todos.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Os melhores poemas

Qual o poeta que não queria ter escrito um grande poema ? Um daqueles que saem da caneta durante uma semana, um mês ou um ano inteiro e que depois de uma emenda aqui, um corte acolá, o poeta olha-o exausto e pensa:"Já está.".

O que sentiu o Pessoa depois de ler a sua "Tabacaria" ? Pensou que era "A Obra" ou que apenas se tratava de mais um esboço para a arca ? E o grego Kavafis, na sua Alexandria, depois de escrever "À espera dos bárbaros" ? Como conseguiu ele reduzir tanto em tão pouco e com tanta beleza - espero eu, que não sei ler grego. E Ruy Belo, como se sentiu ele depois da "Muriel" ? Terá ele pensado que podia viver sem ela, sem elas - suas musas de fumo com quem trocaria olhares nos átrios dos cinemas ou nas esplanadas de Madrid ?

Por mais insignificante que seja, todo o poeta tem a esperança envergonhada de com algumas linhas - vindas sabe-se lá donde - ficar no imaginário coletivo das gerações futuras e tornar algo por si criado, ou montado se assim quiserem, numa referência  clássica.

Fernando Pessoa

Konstatinos Kaváfis

Ruy Belo



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Do amor



Do amor, existem dois tipos: o egoísta e o generoso. O primeiro controla, exige, é reflexivo, ou seja, ama e espera ser amado. Este amor egocêntrico cresce quando o amado se assemelha, prolonga ou complementa o amador. O segundo, o generoso,  liberta, arrisca, ama independentemente de ser amado e sobretudo aceita e compreende que amar assim implica um sofrimento proporcional.






domingo, 25 de fevereiro de 2018

Pelo rio abaixo (versão declamada)




Poema escrito para a homenagem a António Borges Lopes (1943-2018) realizada no Auditório de Alfornelos em fevereiro de 2018

Foto de Carla Ferreira da última cena de "A Moura" levada à cena pelo Teatro Passagem de Nível
Cenários de Paulo Oliveira
Figurinos de Francisco Silva
Atores: António Borges Lopes e Luís Palma Gomes


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Pelo rio acima


Este poema foi escrito com a intenção de ser declamado na homenagem efetuada ao amigo António Borges Lopes no "Serão dos Poetas"  (Alfornelos - Amadora, 24 de fevereiro de 2018). As letras maiúsculas significam mais ênfase na dicção.


Às vezes apetece-me um lugar comum, por isso digo-vos

AS LÁGRIMAS COM QUE ESCREVO SÃO DE SANGUE

Não são nada.
São de   ÁGUA, simples ÁGUA

Descem a colina dos PÁSSAROS
Até à serena HORTA DOS FRADES.

As LÁGRIMAS COM QUE escrevo
Trilham as profundas rugas da MONTANHA

E como um cuidadoso FIO DE AZEITE
Perguntam ao RIO se podem entrar na CORRENTE.


Olham para trás, A NASCENTE
Olham para a frente, TANTA GENTE
Gente, Não.
Aquilo, senhores, é a humanidade dos PEIXES.
Peixes que saltam, juntam-se, separam-se e
Comem-se entre eles às vezes.

(Voz da multidão): “MEMENTO MORTI”... “MEMENTO MORTI”
“Lembra-te que és mortal”
Diziam os escravos aos generais romanos
Quando entravam vitoriosos
Na  cidade eterna
“MEMENTO MORTI”
“Lembra-te que és mortal”

Mas os peixes, senhores, NÃO OUVEM
NÃO TEM TEMPO
Ou se ouvem, Não se entendem
Há as correntes, os peixes grandes, as rochas, as represas
E pela frente
Sempre aquela  esperança
Ora ausente ora presente
De um infinito e manso mar
Onde as minhas lágrimas de sangue se diluiem
Porque agora se lembram da tua lição
Da tua forma subtil de dizer:
 Como é bom viver
Em mar aberto e num alegre cardume de peixes
Finalmente FRATERNOS. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Maria Teresa Belo

Já sentia por ela uma certa  ternura antes de a conhecer. Tudo porque ao ler "O elogio de Maria Teresa" de Ruy Belo, pressenti refletida naquele poema a dimensão de Maria Teresa Belo, mulher e mais tarde viúva do poeta. Depois conheci-a felizmente e pode confirmar e aumentar a consideração que tinha por ela, como mãe, professora e mulher do poeta Ruy Belo - condição que ela sempre abraçou com firmeza e determinação. Ontem soube que faleceu, depois de uma luta de seis anos com a doença. Sempre a vi porém animada e esperançosa. Foi hoje a enterrar em S.João da Ribeira (Rio Maior) juntando-se ao marido que ali jaz.  Em sua memória, transcrevo dois  versos do poema atrás citado que depois de os ler jamais os esqueci:

"Contigo fui cruel no dia-a-dia/ mais que mulher tu já és hoje a minha única viúva"

in "O elogio de Maria Teresa" do livro "Nau dos Corvos" de Ruy Belo


Dra. Maria Teresa Belo em sessão sobre a poesia de Ruy Belo
(Rio Maior, 15/5/2013) 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Job

 "Job e os seus amigos" (det.) | Gustave Doré

"Não há ser humano que viva, que possa viver, sem uma qualquer forma de fé, em seu sentido mais básico e fundamental de ato de acreditar em algo interno ou externo a esse que acredita." 


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Compreensão e silêncio

Ontem durante um programa biográfico sobre Angela Merckel na RTP3, citava-se a frase de Maquiavel relativamente ao chefe político: "Muitos o vêem, mas poucos o entendem". Não me parece que sejamos todos o "Príncipe" - obra de onde  foi extraída a frase. Parece-me sim que todos nós devemos em parte  sentir essa incompreensão dos outros.


Acredito que a maior esperança dos incompreendidos seria a existência de alguém que os conhecesse e compreendesse profundamente. Tenho fé na existência dessa entidade. Se esse alguém poderoso e caritativo nos compreendesse, poderiamos então abandonarmo-nos à nossa íntima vontade. 


A boa nova é que, por via dessa entidade que chamamos Deus, essa compreensão misteriosa (omnisciência apenas parcial e profundamente subjetiva) acaba por acontecer pontualmente entre nós - criaturas instáveis sobre o conhecimento do outro. 


E como podemos provar esta compreensão? O maior argumento, creio, está na força do seu silêncio. Sim, quando nos calamos tranquilamente diante do outro para o ouvir, inicia-se este milagre da compreensão.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Hoje morreu-me um amigo

Surpreendido hoje pela morte de António Augusto Borges, fiquei mais pobre. Morreu-me um amigo, um amigo do teatro e da vida. Tenho a clara impressão que fiquei-lhe a dever qualquer coisa. Pelo menos, um abraço. Fizemos a "A Moura" juntos. Eu era o Conde e ele, o meu frade confessor.

A primeira frase durante o espetáculo que eu lhe dirigia era: "Ainda bem que vieste." E assim o continuei a cumprimentar cada vez que o via no foyer, nos ensaios, na rua, nos belos almoços que fizemos.

O espetáculo terminava com esta frase dita por ele: "Vou descansar. Foram dias de muito reboliço. Já começo a ficar velho, meu senhor. (Olhando primeiro céu devagar) Hoje está quarto crescente. Um bonito astro, por sinal. Faz lembrar a Oriana – a Moura. A princesa-santa. Boa noite, Conde. ". E fechavam-se as luzes.

Até sempre, frade. Provavelmente, num ou noutro momento de sensatez, humor ou boa disposição, vou lembrar-me de ti, António.


António Borges Lopes (frade) e eu (conde) em A Moura 2015/2016 



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

no sentido irregular dos ponteiros do relógio

debaixo do sol
cumpre-se mais uma manhã

como pode ser tão regular o universo
e tão instável e indeterminada
esta balada que me desce
pelos braços e pernas até às extremidades,
este sentimento tantas vezes tresmalhado da esperança?

talvez sob o seu olhar altíssimo
também eu viva compassadamente
numa espiral perfeita e contínua
até ao momento em que face a face
Ele me receberá no lugar distante da nossa casa    amor




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Há um ar de neve

Há um ar de neve que me molha e seca
como se a liberdade fosse um pássaro negro
colado a um ramo tão altaneiro e destacado
que se podia dizer inquilino do céu

Deslumbrado, bate as asas, diante aquele horizonte
Bate as asas, o pássaro, bate as asas infinitamente
Mas das fixas patas que não descolam
vem-lhe à boca um sorriso tolo, disfarçado, intermitente
Ao longe, parece um louco
De perto, pareço eu

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Memória poética-matemática

O poema "Estudo de uma função inquieta variável" foi escrito por mim, em agosto de 1998, depois do estudo durante o verão  para a prova especifica de Matemática do 12º ano e foi publicado, nesse mesmo mês, num suplemento literário juvenil do CM, sob o pseudónimo de BB Lapper. Dedico-o agora à Beatriz Cazenave.


"Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo"
Álvaro de Campos


Domínio

Infinito lar
quebrado aqui e além
pelo chão falso do acaso

Continuidade

De mãos dadas
a eterna falua* dos meninos
prossegue
num sigilo gráfico

Assimptota vertical

Nas mais altas torres do reino
vivem, para sempre noivas,
as primeiras princesas louras.


Assimptota Horizontal

Quem a traçou no firmamento?
A mão da terra que queria voar
ou a do céu que queria pousar ?


Monotonia

Também as linhas
crescem e decrescem
tão afeitas que estão à paixão dos homens

Concavidades

Absolutos,
os números sulcam os vales
ante o fogo cabisbaixo dos amantes


PS. Peço desculpa a todos aos que não puderam estudar uma função variável nas disciplinas de Matemática e que por essa razão tem mais dificuldade em entrever a poesia da Matemática.

* Falua - Barco de carga usado no rio Tejo, a palavra deriva do árabe Faluka que significa Barca.


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