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sábado, 25 de novembro de 2017

Tardolítica

A meia idade
é a luz possível
numa tarde chuvosa.

É um chá sem mel
na garganta ressequida que procura
uma cantiga  ainda interior.

A tarde cai de costas.
Arranca o pano preto do último espetáculo
onde foram cosidas as poucas estrelas que me guiavam.





sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Se for possível

Não quero me faças ganhar, quero que me ensines o que fazer com a derrota
Não quero que me faças viver eternamente, quero que me ajudes a morrer com dignidade
Não quero que mantenhas saudável, quero que me ajudes a aceitar a doença e a dor
Não quero que me faças rico, quero que me conduzas à casa onde preciso de pouco para estar em paz
Não quero que me faças famoso, quero que me ajudes a dissolver nos outros como um peixe solúvel
Não quero JÁ! Quero que seja o teu tempo a decidir para quando e quanto e onde e porquê
Não quero que me respondas, quero apenas sentir-te chegar nos anjos com asas escondidas e olhos benevolentes que me envias
Não quero ver o teu rosto, não
Não estou preparado para tal momento
Logo me ardiam os olhos ou cresceria em mim uma soberba, primeiro, prateada
E depois demasiado pesada para carregar aos ombros

Se for possível, deixa-me sofrer por uma crença
Lamber o chão com orgulho
Mendigar abraços e beijos entre os mendigos
Viver nesta intermitente busca de palavras para que um dia quiçá me possas ouvir
Através daqueles com quem tive a graça de falar
É isso que espero contra toda a esperança
E esperar contra a esperança, é que é difícil, não é?
Então, perdoa-me a ambição, mas é isso que eu quero

Detalhe do "Paraiso" extraído do  tríptico O Jardim das Delícias Terrenas (c. 1503 - 1510), de Hieronymus Bosch



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O MITRA


A título irónico nasceu nas redes sociais um movimento chamado MITRA, o acrónimo significa "Movimento pela Independência Total da Região da Amadora". Houve logo algumas adesões e eu aderi com um singelo "gosto". Num tempo de discussão sobre a independência catalã ou sobre a sempre adiada regionalização do território nacional, é desanuviante que alguém se lembre que criar a titulo humorístico o MITRA. O humor como devem saber é um assunto muito sério, por várias razões. Uma delas é que serve para dizer o que não se pode dizer. Era este o expediente do bobo da corte ou dos humoristas contemporâneos.

A parte séria da questão é que somos uma cidade maltratada e humilhada pelos meios de comunicação social, porque acolhemos a diferença, porque não tivemos alguns cuidados urbanísticos a partir dos anos 50-60. Enfim, nada que não se resolva com uma boa gargalhada e este movimento promete-nos algumas. Lembrando o anónimo poeta-sapateiro Bandarra que escrevia versos contra a governação espanhola de Portugal no século XVII, também eu me lembrei que o Mitra precisava de um Bandarra da Porcalhota e decidi candidatar-me com esta quadra:

Jamais pela ideia ou alma me passou
Este novo desejo que tanto me excita
De nas redes sociais dizer que sou
Simples e orgulhosamente um Mitra


PS. Espero que chegue em breve ( para aí uns 500 anos) aos manuais escolares


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