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terça-feira, 12 de setembro de 2017

O barqueiro

Cena do filme "Dead Man" de Jim Jarmush com Gary Farmer e Johnny Deep


Os poemas não se explicam, sempre ouvi dizer e de certa forma concordei. O que não quer dizer que não tenham explicação. Neste caso, sinto-me na obrigação de explicar que este barqueiro que nos fala o poema que acabei de escrever e abaixo transcrevo é uma personagem do filme de "Homem Morto" de Jim Jarmush. O filme fala-nos de um barqueiro índio que conduz um homem perseguido e aparentemente condenado ( o ator Johnny Depp) dado o poder dos seus perseguidores, rio abaixo, até ao reino dos mortos. O barqueiro confunde o homem com o poeta inglês William Blake. Mais uma vez, Jim Jarmush não perde a oportunidade para relembrar os seus grandes poetas, como o fez relativamente a William Carlos Williams no seu mais recente trabalho "Paterson". Mas regressando à sabedoria da aceitação da morte personificada pelo barqueiro que nos leva serenamente ou não pelo rio abaixo até ao ocaso da vida, apenas tenho a dizer que a aceitação da condenação é absoluta liberdade. O barqueiro neste processo toma o lugar do pedagogo, um facilitador para esta enorme experiência que é a aceitação da morte.


O barqueiro

Ao homem quase  morto
é preciso encaminhá-lo
ao seu destino nupcial,
onde aquele silêncio
— que  a eternidade entoa —
apaga o ruído  nervoso
das rodas dentadas
que fazem o sol girar. 

Assim faz o barqueiro
levando gentilmente o homem quase morto
pelo doméstico  rio até ao indistinto mar.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Exercício espiritual de José Tolentino Mendonça

O poema "Exercício espiritual" pode parecer uma abordagem suicida ou um daqueles momentos em que o poeta se sente enjaulado num cubo egocêntrico, mas não é. Este pequeno poema de Tolentino Mendonça é uma possibilidade de esperança de que ele mesmo se apercebe num curto momento de clarividência. É uma faísca ("dar agora meia dúzia de passos"), um prenúncio de coragem("mas de olhos vendados"), como alguém que oferece as mãos e os pés aos pregos romanos ansiosos por beijar a fortaleza da cruz. Mas a cruz que o poeta nos fala é de outra natureza ("arriscando em vez de tropeções habituas"). Não tem corpo, não é uma estrutura pré-construída e previsível - nada disso. É uma queda profunda à procura de um mistério. É uma viagem de sentido descendente sem fim e tratando de forma irrelevante tudo o que está antes do momento em que ela acontece. Agora ouçam se tem ouvidos:

Exercícios Espirituais

Devem existir maneiras de ir mais além
do pequeno fracasso
dar agora meia dúzia de passos 
mas de olhos vendados
ver a vida romper-se no governo do vazio
arriscando em vez de tropeções habituas
a queda infinita

(José Tolentino Mendonça, 2017)

Nota: Este poema está incluído no livro Teoria da Fronteira, publicado em junho de 2017, pela Assírio & Alvim.
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