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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O instante absoluto

A atenção que devemos ao mundo tem uma dimensão impagável.  A melhor solução seria cada um nós escrever, durante toda a vida, apenas um poema sobre uma ínfima parte  da realidade observada. Assim mesmo, tornar-nos-iamos todos absolutos mestres de um segundo apenas. Entenderiamos finalmente a sábia eternidade do instante.

sábado, 26 de janeiro de 2019

A ideia

No trilho da mata, a luz estilhaçou-se em pequenas folhas. O som intensificou-se uniforme até ao limite de se tornar um silêncio novo. E até o frio congelou os cheiros, os odores da madeira. 
Apenas a palavra resistiu portável de lugar para lugar, consentida de século em século. A palavra pensada trazia na sua transparência inodora e insonora a semente da ideia. E com ela podemos  evocar de novo a memória dos sentidos.

Mata da Matinha
Queluz, janeiro de 2019









quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A pluma

"E como voam os pássaros?",
 perguntas.

Se as pontas enquistadas
dos teus dedos
afagassem com volúpia
a primeira pluma do lagarto,
saberias.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Subjugação

A aspereza da vida é interromper "O Vale Abraão " do Manoel de Oliveira por estar na hora da fisioterapia. São estes momentos que reforçam a subjugação do espírito às leis da condição animal.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ensaio sobre o limite inacabado

E se o tempo não passasse.
E se avançasse eu apenas pela transparência das coisas
como um anjo ou fantasma,
tornando-me agora, só por agora,
um elemento conexo e emergente
dessa paisagem fictícia
que ora cresce ora mingua,
sob este olhar precoce
que às vezes pela manhã me inquieta.

Por momentos deixo a morte.
Troco-a pela palavra fim.
Como se a vida fosse um quadro
onde as veias e o futuro
dessem lugar a dimensões geométricas
desenhadas, modeladas
por uma mão maior
- que movida por um braço que tudo abraça -
traçasse diante de mim e em linhas convergentes
 o provir silencioso das horas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Esperança

Depois de ver "Toutes le matin du monde" de Alain Corneau


Está escuro.
Nada mais digo.
E sem ruído, deixo-me levar
pela promessa da janela 
- qual varejeira , em vôo incerto,
procurando o destino que se insinua
na escuridão do pleno dia.




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