FAZ-TE MEMBRO DESTE BLOG E RECEBE NOTIFICAÇÕES DOS NOVOS POSTS

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A pluma

"E como voam os pássaros?",
 perguntas.

Se as pontas enquistadas
dos teus dedos
afagassem com volúpia
a primeira pluma do lagarto,
saberias.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Subjugação

A aspereza da vida é interromper "O Vale Abraão " do Manoel de Oliveira por estar na hora da fisioterapia. São estes momentos que reforçam a subjugação do espírito às leis da condição animal.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ensaio sobre o limite inacabado

E se o tempo não passasse.
E se avançasse eu apenas pela transparência das coisas
como um anjo ou fantasma,
tornando-me agora, só por agora,
um elemento conexo e emergente
dessa paisagem fictícia
que ora cresce ora mingua,
sob este olhar precoce
que às vezes pela manhã me inquieta.

Por momentos deixo a morte.
Troco-a pela palavra fim.
Como se a vida fosse um quadro
onde as veias e o futuro
dessem lugar a dimensões geométricas
desenhadas, modeladas
por uma mão maior
- que movida por um braço que tudo abraça -
traçasse diante de mim e em linhas convergentes
 o provir silencioso das horas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Esperança

Depois de ver "Toutes le matin du monde" de Alain Corneau


Está escuro.
Nada mais digo.
E sem ruído, deixo-me levar
pela promessa da janela 
- qual varejeira , em vôo incerto,
procurando o destino que se insinua
na escuridão do pleno dia.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Poupança

ao Padre Tolentino Mendonça



Só um poema basta
Só uma palavra
Só um pingo de sombra
desinquietando a luz do meio-dia

Só uma folha
manuscrita com os olhos
Só o tic-tac do despertador
a marchar pela casa vazia

Só uma gota basta
Só uma
se escorrer sem pressa para a fresta da sede 

sábado, 24 de novembro de 2018

A queda dum anjo



Vários amigos, falavam de "A queda dum anjo" de Camilo Castelo Branco como uma sátira à política, mais concretamente à corrupção dos bons valores de todos aqueles que entram na política por fortes convicções morais e cívicas e acabam por não resistir às tentações do poder, de ter uma audiência privilegiada e uma crescente capacidade de influência. Este arquétipo adapta-se bem ao cidadão brilhante que nado e criado nas zonas afastadas das principais urbes chega à cidade para influenciar, para que a sua vontade seja levada em conta entre aquelas que dirigem o rumo do pais. Os exemplos em Portugal são imensos e mesmo quando esta migração "Campo-Cidade" não é física mas sim cultural, porque a migração física terá sido efectuada pelos progenitores que trouxeram do ambiente provincial um sistema de valores que estruturam estes novos citadinos. Assim de repente, lembro-me de António Guterres, José Sócrates, José Hermano  Saraiva, recentemente - mas a história politica e cultural portuguesa está repleta de personalidades que trazem esta força de vencer da chamada "província" para a capital. Calisto Elói - personagem principal do romance de Camilo - agrega esses valores e destino. Tem convicções fortes e decididas sobre matérias como o luxo, a política e sobretudo sobre a forma de estar a vida. Em contacto com uma realidade mais complexa que invade a sua vivência diária, os seus valores alteram-se e este facto manifesta-se tanto no seu pensamento político - de conservador-legitimista torna-se um liberal-progressista - como na sua forma de vestir, fumar ou orientar a sua vida sentimental.

É precisamente, neste âmbito que discordo de todos aqueles amigos que me falam na corrupção do carácter do Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas. Ele não quebra, mas sim evolui. Vinculado a um pensamento estanque e estéril, oriundo de um casamento sem amor efetuado em Caçarelhos com a sua mulher, D.Teodora de Figueiroa, encontra na cidade o amor e o prazer pela vida. Mas não perverte os seus princípios de verdade. Apenas se afirma com a mesma frontalidade e coragem  que  antes defendem uma conduta conservadora e baseada no estudo dos clássicos - livros onde se alienava em parte do tédio de um casamento sem paixão - numa nova vida com paixão, beleza e descendência (dois filhos).

Este romance de Camilo será um momento de transição literária entre o romantismo para um romance realista e ao mesmo tempo satírico ao jeito de Eça de Queiroz. O que me fascinou foi realmente para além de todo o humor satírico com que descreve a paisagem da política parlamentar portuguesa, aquele final onde o amor ao belo e à vida se sobrepõem às caquécticas estruturas de uma outra visão da vida - teimosa e teoricamente pura, mas na verdade estéril e alienada. 
_