quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Poupança
ao Padre Tolentino Mendonça
Só um poema basta
Só uma palavra
Só um pingo de sombra
desinquietando a luz do meio-dia
Só uma folha
manuscrita com os olhos
Só o tic-tac do despertador
a marchar pela casa vazia
Só uma gota basta
Só uma
se escorrer sem pressa para a fresta da sede
sábado, 24 de novembro de 2018
A queda dum anjo
Vários amigos, falavam de "A queda dum anjo" de Camilo Castelo Branco como uma sátira à política, mais concretamente à corrupção dos bons valores de todos aqueles que entram na política por fortes convicções morais e cívicas e acabam por não resistir às tentações do poder, de ter uma audiência privilegiada e uma crescente capacidade de influência. Este arquétipo adapta-se bem ao cidadão brilhante que nado e criado nas zonas afastadas das principais urbes chega à cidade para influenciar, para que a sua vontade seja levada em conta entre aquelas que dirigem o rumo do pais. Os exemplos em Portugal são imensos e mesmo quando esta migração "Campo-Cidade" não é física mas sim cultural, porque a migração física terá sido efectuada pelos progenitores que trouxeram do ambiente provincial um sistema de valores que estruturam estes novos citadinos. Assim de repente, lembro-me de António Guterres, José Sócrates, José Hermano Saraiva, recentemente - mas a história politica e cultural portuguesa está repleta de personalidades que trazem esta força de vencer da chamada "província" para a capital. Calisto Elói - personagem principal do romance de Camilo - agrega esses valores e destino. Tem convicções fortes e decididas sobre matérias como o luxo, a política e sobretudo sobre a forma de estar a vida. Em contacto com uma realidade mais complexa que invade a sua vivência diária, os seus valores alteram-se e este facto manifesta-se tanto no seu pensamento político - de conservador-legitimista torna-se um liberal-progressista - como na sua forma de vestir, fumar ou orientar a sua vida sentimental.
É precisamente, neste âmbito que discordo de todos aqueles amigos que me falam na corrupção do carácter do Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas. Ele não quebra, mas sim evolui. Vinculado a um pensamento estanque e estéril, oriundo de um casamento sem amor efetuado em Caçarelhos com a sua mulher, D.Teodora de Figueiroa, encontra na cidade o amor e o prazer pela vida. Mas não perverte os seus princípios de verdade. Apenas se afirma com a mesma frontalidade e coragem que antes defendem uma conduta conservadora e baseada no estudo dos clássicos - livros onde se alienava em parte do tédio de um casamento sem paixão - numa nova vida com paixão, beleza e descendência (dois filhos).
Este romance de Camilo será um momento de transição literária entre o romantismo para um romance realista e ao mesmo tempo satírico ao jeito de Eça de Queiroz. O que me fascinou foi realmente para além de todo o humor satírico com que descreve a paisagem da política parlamentar portuguesa, aquele final onde o amor ao belo e à vida se sobrepõem às caquécticas estruturas de uma outra visão da vida - teimosa e teoricamente pura, mas na verdade estéril e alienada.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Um certo caos
A sala de espera estava pintada com o mesmo azul cobalto
daquele Tejo encrespado dos dias encobertos.
Os números das senhas de espera saltavam urgentes e vazios
sem que ninguém os reclamasse.
Um telemóvel tocou e uma senhora atendeu e perguntou:
"Leste o que escreveste ?"
Chamaram entretanto a minha senha. Chegara a minha vez.
A minha vez de quê?
daquele Tejo encrespado dos dias encobertos.
Os números das senhas de espera saltavam urgentes e vazios
sem que ninguém os reclamasse.
Um telemóvel tocou e uma senhora atendeu e perguntou:
"Leste o que escreveste ?"
Chamaram entretanto a minha senha. Chegara a minha vez.
A minha vez de quê?
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
(in)adaptação
Henrique, conhecido apenas por mim como o bom gigante, enviou-me uma mensagem alertando-me para a dificuldade que passam alguns *Mbunas durante a adaptação às condições dos novos aquários. A acidez e a dureza da água atingem valores aos quais alguns não resistem, escreveu-me ele.
*Mbunas - Peixe das rochas, em idioma Tonga, falado no norte lago Malawi, Africa.
*Mbunas - Peixe das rochas, em idioma Tonga, falado no norte lago Malawi, Africa.
Preâmbulo da "arte pobre"
O Bruno alertou-me para as contingências da arte pobre, onde um convicto artista desta corrente, engarrafou os próprios excrementos, convencendo depois algum publico de que se tratava de uma obra prima.
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
Ansiolítico
Esta é uma poesia mansa, a meia-idade, a luz possível num dia chuvoso. É um chá com pouco mel que se retarda na garganta ressequida do trovador, enquanto procura a melodia na indiscriminada pauta do bocejo.
Esta é uma cantiga demasiado interior, até mesmo para aqueles que nos escutam pelos olhos e se acumulam na casa velha, deitados sobre o pó que, em ascese, levita.
Esta é a poesia manuscrita numa margem carcomida, quando a tarde cai de costas e arranca o cenário onde as estrelas foram cosidas pela única costureirinha do Génesis.
Nota: Encontrei dispersos por muitos cadernos de apontamentos iniciados em 2016, um conjunto de poemas que começo hoje a publicar aqui.
Esta é uma cantiga demasiado interior, até mesmo para aqueles que nos escutam pelos olhos e se acumulam na casa velha, deitados sobre o pó que, em ascese, levita.
Esta é a poesia manuscrita numa margem carcomida, quando a tarde cai de costas e arranca o cenário onde as estrelas foram cosidas pela única costureirinha do Génesis.
Nota: Encontrei dispersos por muitos cadernos de apontamentos iniciados em 2016, um conjunto de poemas que começo hoje a publicar aqui.
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