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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Preâmbulo da "arte pobre"

O Bruno alertou-me para as contingências da arte pobre, onde um convicto artista desta corrente, engarrafou os próprios excrementos, convencendo depois algum publico de que se tratava de uma obra prima.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Ansiolítico

Esta é uma poesia mansa, a meia-idade, a luz possível num dia chuvoso. É um chá com pouco mel que se retarda na garganta ressequida do trovador, enquanto  procura a melodia na indiscriminada pauta do bocejo.

Esta é uma cantiga demasiado interior, até mesmo para aqueles que nos escutam pelos olhos e se acumulam na casa velha, deitados sobre o pó que, em ascese, levita.

Esta é a poesia manuscrita numa margem carcomida, quando a tarde cai de costas e arranca o cenário onde as estrelas foram cosidas  pela  única costureirinha do  Génesis.




Nota: Encontrei dispersos por muitos cadernos de apontamentos iniciados em 2016, um conjunto de poemas que começo hoje a publicar aqui.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A voz da selva


No livro "Apelo da Selva" de Jack London, um cão de guarda estimado pelo seu dono, juiz norte-americano, é raptado e vendido a prospectores  de ouro do Alasca. A partir desse instante a sua vida altera-se radicalmente. Confrontado com múltiplas adversidades, Buck, assim se chama o cão, vê-se obrigado a lutar para sobreviver. O sofrimento do paraíso perdido, da hipotética injustiça, da inevitabilidade das lutas tornam, Buck, um cão diferente. Desenvolve uma  personalidade  confiante crescente, tendo esta como estrutura base, a luta pela sobrevivência. A pergunta que subsiste na consciência do leitor é a seguinte: Buck transforma-se impulsionado pelas contingências da nova vida ou retorna à sua condição ancestral, neste caso, de um selvagem ?

Jack London sabia que a vida era dura.  Mesmo assim não resistiu e parece que  se deixou  vencer pela melancolia. Que importa,  Jack, todos, mais cedo ou mais tarde, nos deixamos vencer por ela. Normalmente apenas lutamos quando vale a pena. Quando a voz da selva ecoa no nosso desejo e desafia-nos até ao limite da derrota ser incurável.





quarta-feira, 5 de setembro de 2018

domingo, 19 de agosto de 2018

Não se pode voltar a nenhures

Não há regresso à infância, porque ela nunca lá esteve enquanto jardim de inocência e prazer. O que existe é a sua sombra e só um poema pode espreitá-la, se vestido de penumbra e displicência. 

domingo, 5 de agosto de 2018

"Conto de Verão" de Éric Rohmer




O "Conto de Verão" de Éric Rohmer fala da fragilidade das relações que se estabelecem entre jovens numa estância balnear na Normândia - França. Gosto deste filme, porque gosto de princípios, de ver nascer, dos primeiros passos ainda que todas estas coisas sejam incipientes e algo atabalhoadas. O que faz andar a história (a peripécia) é a hesitação de um rapaz que divide a sua atração por três raparigas: uma amizade-colorida, uma com "nariz-arrebitado" - a namorada oficial - e, por último, uma outra que transpira erotismo e diversão. Como é sabido nestas coisas do amor ninguém gosta de repartir nada e o rapaz acaba por ficar sem nenhuma delas. Ele porém não se mostra especialmente aturdido com o desenlace e regressa à sua cidade mais interessado em comprar uma nova guitarra do que resolver aquele nó-górdio.  Alguns filmes de Rohmer são assim. Imitam a vida no que ela tem de mais descartável. Tudo parece muito importante enquanto decorrem os diálogos - e os diálogos franceses são tipicamente tensos e argumentativos -  mas tudo é afinal como a espuma dos dias. E como dizem os jornais, o verão é uma estação tonta. Talvez por isso é que gostamos dela.

sábado, 4 de agosto de 2018

A subida às árvores

Acabei de ler "O Barão Trepador" de Italo Calvino. Tinha-o na prateleira há anos e por acaso regressou-me às mãos. Calvino relata a vida de um rapaz que se revolta contra o facto de o pai, Barão de Rondó, o obrigar a comer caracóis. Na verdade, os caracóis são apenas um motivo caricato, para o choque histórico que já se vislumbra: as revoluções liberais, o republicanismo francês, a revolução francesa e os seus ideais e por fim Napoleão. O romance fantástico decorre essencialmente na Itália do século XVIII - dominada pelos Habsburgos da Áustria. O jovem barão representa um novo sentimento: aquele que está mais perto do natural e por isso a sua revolta expressa-se em subir às árvores e passar a viver por lá sem descer nunca ao chão - prodígio da imaginação de Calvino e de uma Europa  de bosques contíguos de árvores ainda e apenas europeias. Em cima das árvores, vive romances, cultiva o espírito motivado pela onda de curiosidade trazida pelos Enciclopedistas, dá corpo e voz aos movimentos de emancipação dos povos e acaba na desilusão de Napoleão. Como é habitual a revolução não cumpre inteiramente as suas premissas, mas produz mudanças irreversíveis na política europeia mesmo sem cumprir a "liberté, equalité et la fraternité". Cosimo, assim se chama o barão romântico, acredita radicalmente nesses ideais e expressa-a de forma desabrida.

Nos momentos de transição, os homens ficam desorientados, não sabem para onde se dirigir, nem que conselhos dar aos filhos. O futuro está enublado e ninguém o consegue cingir. A decisão de Cosimo é uma decisão de ruptura, nunca entendida pelo pai, mas respeitada.
As civilizações acabam muito antes de desaparecerem. Talvez a nossa esteja a desvanecer para que outra possa enquadrar a Europa. Acredito que sim. E espero que como Cósimo possamos viver se não exclusivamente, pelo menos mais perto das árvores.

Há mais de 10 anos chamei a este diário "Árvore com voz". A voz era provavelmente de Cósimo, o Barão Trepador.
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