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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A existência

Ao invés do que escreveu René Descartes, quando mais pensamos, menos existimos. Porque a razão é um elemento absorvente da diferença, da nossa individualidade. E como poderíamos existir se apenas nos deixássemos orientar pela razão ? E até onde é possível ser razoável sem amachucar de forma irreparável a nossa forma exclusiva de percepcionar a vida ?  

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O barqueiro

Cena do filme "Dead Man" de Jim Jarmush com Gary Farmer e Johnny Deep


Os poemas não se explicam, sempre ouvi dizer e de certa forma concordei. O que não quer dizer que não tenham explicação. Neste caso, sinto-me na obrigação de explicar que este barqueiro que nos fala o poema que acabei de escrever e abaixo transcrevo é uma personagem do filme de "Homem Morto" de Jim Jarmush. O filme fala-nos de um barqueiro índio que conduz um homem perseguido e aparentemente condenado ( o ator Johnny Depp) dado o poder dos seus perseguidores, rio abaixo, até ao reino dos mortos. O barqueiro confunde o homem com o poeta inglês William Blake. Mais uma vez, Jim Jarmush não perde a oportunidade para relembrar os seus grandes poetas, como o fez relativamente a William Carlos Williams no seu mais recente trabalho "Paterson". Mas regressando à sabedoria da aceitação da morte personificada pelo barqueiro que nos leva serenamente ou não pelo rio abaixo até ao ocaso da vida, apenas tenho a dizer que a aceitação da condenação é absoluta liberdade. O barqueiro neste processo toma o lugar do pedagogo, um facilitador para esta enorme experiência que é a aceitação da morte.


O barqueiro

Ao homem (quase)  morto
é preciso encaminhá-lo
ao seu destino nupcial
onde aquele silêncio
que só a eternidade entoa
apazigua o ruído mecânico e nervoso
das rodas dentadas de viver sol após  sol

Assim faz o barqueiro
levando nas suas presas
gentilmente
o homem morto
pelo doméstico  rio até ao indistinto mar


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Exercício espiritual de José Tolentino Mendonça

O poema "Exercício espiritual" pode parecer uma abordagem suicida ou um daqueles momentos em que o poeta se sente enjaulado num cubo egocêntrico, mas não é. Este pequeno poema de Tolentino Mendonça é uma possibilidade de esperança de que ele mesmo se apercebe num curto momento de clarividência. É uma faísca ("dar agora meia dúzia de passos"), um prenúncio de coragem("mas de olhos vendados"), como alguém que oferece as mãos e os pés aos pregos romanos ansiosos por beijar a fortaleza da cruz. Mas a cruz que o poeta nos fala é de outra natureza ("arriscando em vez de tropeções habituas"). Não tem corpo, não é uma estrutura pré-construída e previsível - nada disso. É uma queda profunda à procura de um mistério. É uma viagem de sentido descendente sem fim e tratando de forma irrelevante tudo o que está antes do momento em que ela acontece. Agora ouçam se tem ouvidos:

Exercícios Espirituais

Devem existir maneiras de ir mais além
do pequeno fracasso
dar agora meia dúzia de passos 
mas de olhos vendados
ver a vida romper-se no governo do vazio
arriscando em vez de tropeções habituas
a queda infinita

(José Tolentino Mendonça, 2017)

Nota: Este poema está incluído no livro Teoria da Fronteira, publicado em junho de 2017, pela Assírio & Alvim.

domingo, 30 de julho de 2017

Insónia

São três da manhã. Estou num hostel à beira do rio Arade. Um trio de espanholas surdas-mudas entram no hostel e acordam-me. Ó ironia das ironias  ser acordado por mudas. Preciso de dormir. Não consigo deixar de ouvir o arrastar dos pés e as suas vocalizações estranhas. Pego no telemóvel, coloco os headphones e começo ouvir o "Adagio" do Samuel Barber. A música completa a vista  histórica de Silves. Obrigo-me a escrever:

Fúnebre canção  de embalar
que vagueia pela noite dentro
descendo ao fundo do poço,
já indistinta do silêncio,
resgata e adormece-me
como se eu fosse a coruja 
à espera do sol raiar.

As mudas desligam a luz, quando acabo de escrever este poema, este estribilho. Acordam ao longe o galo e as galinhas da Horta Grande. Adormeço eu imaginando o ultimo voo da coruja que se vem deitar.
Silves à noite, vista da ponte romana (foto Miguel Lapas)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dois docs, duas mulheres, duas formas de rebeldia

Acabei de ver dois docs comoventes. Um baseado na biografia da pintora Paula Rego. O outro, na cantora norte-americana Janis Joplin. Ambas marcadas pela sua condição de mulheres muito especiais. Têm histórias de vida absolutamente pungentes.  A americana brilha e explode, com a velocidade previsível de uma estrela pop nos States dos anos 60. A portuguesa tem uma atitude introvertida e transforma as suas ansiedades, forças e subjetividades num longo percurso pictórico. Não vive tão intensamente como Janis Joplin e frequenta meios mais serenos. Por isso resiste, insiste e vence. Aliás, ambas artistas vencem o tempo, porque ficaram na história do século XX.

O documentário "Paula Rego, Histórias e Segredos" é uma oração ao ser humana. Chamo-lhe oração murmurada, porque a linguagem da pintora é uma espécie de murmuração do seu subconsciente - uma confissão criptada. "Janis: Little Girl Blue" é um grito, daqueles gritos nascidos no pós-guerra, mas não só. Um grito  para onde convergem muitos silêncios contidos, o silêncio dos negros (Jazz, Blues) ou o silêncio dos humilhados, renegados e falhados. E talvez seja este o drama interior de Janis na década do amor (anos 60): Querer amar todos e ser amada por todos. Uma missão que se revelaria impossível para uma  rapariga gorda e com acne de Port Arthur (Texas) para quem o palco se tornou a melhor forma de ser finalmente amada. Morre de overdose em 1970, como se Janis pudesse desaparecer.




  

terça-feira, 4 de julho de 2017

O teu pé

para a Fatinha

O teu pé
limo sobre a lava
abre em combustão a rocha 
quase adulta
e salgada

Ao largo, 
o vulcão estremece,
mas não acorda
quando o cardume a medo o contorna

Veludo azul e verde
o teu pé tecido de paciência
como uma suave desforra
_