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terça-feira, 4 de julho de 2017

O teu pé

para a Fatinha

O teu pé
limo sobre a lava
abre em combustão a rocha 
quase adulta
e salgada

Ao largo, 
o vulcão estremece,
mas não acorda
quando o cardume a medo o contorna

Veludo azul e verde
o teu pé tecido de paciência
como uma suave desforra

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O caminho

"Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição" Mateus, 7:13


O caminho é estreito e a floresta densa
É natural que a palavra se perca
enredada em raízes ou ecoando sem tino
contra os troncos das árvores

O caminho é estreito
e, milimétricos, os passos que seguem
pela longa viga suspensa sob confusão mental

O caminho é estreito
tão estreito que só tu cabes nele
Mas se o percorreres
convergirás em mistério
para a praça maior dos outros

O caminho é estreito,
assim como os passos são apenas dele

Avança



sexta-feira, 16 de junho de 2017

Uma trindade simples

Como alguém que rasura na casca de uma árvore, não posso deixar de um "Luís Loves Frank Capra" no tronco do Àrvore com Voz.

Os TVcines decidiram passar três filmes (mês de junho) do italo-americano Frank Capra. Todos eles foram nomeados e galardoados com óscares da Academia. Parecem westerns urbanos, com os heróis e os vilões bem definidos, uma história de amor a acompanhar e os heróis sempre a vencer o mal de forma épica, deixando um lastro de moral bíblica ao longo de toda a película.

Que a terra te seja leve, Frank, porque realizaste três obras que me divertiram e inspiraram-me a tentar ser um ser humano melhor.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Deeds_Goes_to_Town

https://pt.wikipedia.org/wiki/You_Can%27t_Take_It_with_You

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Smith_Goes_to_Washington
Mr.Deeds goes to Town (1936)
You cant´t take it with you (1938)

Mr.Smith goes to Washington (1938)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ensina-me

Ó meu Jesus Cristo
Ensina-me a caminhar sobre as águas
A não temer o impossível
Ensina-me a amar a morte, a enfermidade e o inímigo

Deixa-me dar-te a mão, Jesus,
e caminhar ao teu lado como um apostolozinho cego e mudo
E com a outra mão, deixa-me ajudar o meu irmão
a carregar a sua cruz, como fez o cirineu

Se Tu pudesses falar por mim,
apenas com a expressão dos meus olhos,
um silêncio reparador alastraria à minha volta
E nas trevas carnudas da minha cegueira
nasceria a primeira manhã 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Da humildade

Ó poeta não te perguntas porque é que depois de escreveres uma dúzia de versos te surge na alma aquela impressão insolente de que fizeste uma grande obra ?

Tens mesmo a mania das grandezas ou terás, em vão, tentado falar com Deus ?

Terás conseguido falar com Ele ? Se Ele te tivesse escutado, não ficarias com esse sabor de superioridade e glória que te aflora aos lábios, julgo eu, neste meu juízo limitado pelo tempo,  espaço e  corpo.

Temo mesmo que não haja criação humana, mas apenas uma interpretação insuficiente ou uma arrumação temporária da obra de Deus.

Se calhar o universo inteiro não passa de um átomo de uma molécula de um pelo que cresceu na axila Dele esta madrugada.

Porque é Deus, ó poeta, que tudo escuta e cuida. É da sua natureza este cuidado tão intenso como extenso. Ele, sim, é o poeta que escreve, conhece e risca - piedosamente, creio eu -  todos versos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Finisterra, porque sim

Eu sei, tu sabes
que sou um projeto estúpido da terra
desses que se soltam das margens
como um telemóvel sem a tecla de atender
e calcorreando vou de rio em rio
até ao incógnito mar
no máximo dos máximos
passo a três léguas daqueles cabos velhos
que dobram os continentes sem saber porquê

Eu sei, tu sabes
que hoje não há tempo para poemas
mas tão-só para mapas astrais
e sistemas de equações
de índole tão indeterminada como uma fakenews

"Rocky reef on sea shore" de Caspar David Friedrich 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Entre o céu e a terra

Pintura tonalista de Edward Bannister


As religiões são gramáticas com deficiências naturais e humanas. Elas permitem aos humanos nomear ou interpretar o transcendente. É natural que as religiões à semelhança das línguas dos povos tenham uma matriz geográfica, étnica e política. Entre o transcendente e o imanente o que pode um mortal senão seguir o caminho estreito entre ambos. Eles próprios que alternadamente se atraem e repelem.

"Terra
sem uma gota
de céu.

(...)


Céu
sem gota
de terra."

in "Turismo" de Carlos de Oliveira

Há ateus de uma religiosidade tão exigente que nenhuma gramática lhes parece suficiente para a fruíção ou interpretação do transcendente. Ninguém escapa a este anseio de infinito, de partilha caritativa,  de misericórdia e justiça, de uma verdade tão universal e genérica que possa servir de referência a todos nós - ou mais poeticamente - um ponto de fuga comum para onde todos as caminhadas converjam. 
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