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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

a gralha e a raposa

a gralha branca esvoaça no ato clínico de nascer
entre as pernas da sua virgem mãe

traz no bico um pedaço de pão
roído por gengivas gastas e amarelecidas
pelo mesmo vento seco que contaminou as casas

astuta, a raposa pede-lhe que cante
e a gralha imita a primeira palavra
enquanto a vela derrete a noite da aldeia

o pão cai-lhe do bico
e a raposa engole-o cheio do resto da vida
 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cara e coroa

Quem afinal lhe iluminou o caminho ?

O caminho que ele ainda pisa a medo com os seus pés mudos 
e que entrevê  com dificuldade entre a poeira que esconde
o seu destino de caminhante cabisbaixo.


Foi um pássaro azul fluorescente que lhe saiu do peito 
ou  uma coruja feita apenas de vento que do pensamento lhe avoou?



sábado, 24 de outubro de 2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

parece infantil, dizes tu

as mãos rezam
góticas
arcos quebrados
suportando o peso
da prece
sem pressa

os olhos erguem-se
procuram
na copa das árvores
pássaros lunares
chamam-lhe anjos
parece que incendeiam o mal
com os seus lança-chamas estelares


parece infantil, dizes tu
mas a poesia e as crianças têm em comum 
esta simplicidade frágil

estranhamente invencível

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Relativismo

Que os meios nunca justifiquem os fins, porque há valores absolutos ou de urbanidade que não devem ser violados. A vida é uma caminhada, um mistério e nunca um objetivo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Esperar

Espero contra toda a esperança.
A avenida que vejo já não existe.
Só um pássaro negro ficou
e  pia, pia, pia estridente e metálico
como se também ele soubesse.

Espero contra toda a esperança
e por mistério é isso que me anima.



Hoje não há caracóis


É sentado nas traseiras da cidade próspera
que Te escuto,
regressado à momentânea indigência dos plásticos
que esvoaçam entre árvores roídas pelo chumbo dos escapes
- aí mesmo onde os pardais ensaiam eloquentes discursos
para a próxima primavera

Sentado na pedra,
vejo correr o Outono
na direcção do sul, do sal,
da alegria fictícia que os habitantes inventam
para se esconder da invernia soletrada por poemas como este.

Passa o comboio.
Podia escrever uma ode ferroviária,
mas não tenho tempo.
Não há tempo na cidade das luzes fluorescentes,
onde as pretas limpam os restos do pó levantado
pela orgia das ilusões, pela tesão do mercado.

Os transeuntes passam olhando para dentro,
só na memória encontram o conforto
da festa de aniversário
onde à sombra de um largo sobreiro
estavam todos de novo presentes:
o pai, a mãe e as formigas
que passavam pelas ervas de uma avenida pungente.

Os  poemas têm a natureza de qualquer negócio.
Ganham, no seu fecho, o lucro que os afama.

Procuro assim as palavras convenientes (ou contingentes),
as mais encantatórias e ondulantes.

Mas a verdade, a que me obrigo, é um lugar gasto
por uma chuva miúda, persistente.

Procuro nos bolsos, apressado por um tempo burguês, as últimas palavras.
Hesito, pondero e pouco consigo dizer-te para além de
“caminha sem chapéu ou destino e deixa a barba por fazer”.
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