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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

El Jadida #1

Era habitual em El Jadida (Marrocos) encontrar no final do dia, homens sós a ler e a refletir virados para o mar e não para Meca, onde se viram no momento das orações.

Escrevi sobre este fato, estes curtos versos:

duas estrelas
e quatro luas viajantes
iluminam a praia
onde o homem azul*
olhando o mar
recorda um deserto 
escondido no futuro




*Aos berberes, tribo indígena marroquina, chamam "Homens azuis"











terça-feira, 4 de agosto de 2015

A forma mais radical de liberdade

Estranhamente, ou talvez não, também  descobri sozinho esta forma de  me sentir menos prisioneiro.




O sorriso do Hassan




Je ne suis pas un autre,
eu sou o outro,
o que me atira sorridentes beijos  
a caminho da aldeia,
o que apenas sobrevivendo
partilha comigo o último pão,
o que preso no seu circo de feras
gasta um gesto verdadeiramente livre
para me cozinhar um cuz cuz.


Je ne suis pas un autre,
eu sou o outro,
o que caminha a meu lado
serenamente,
o que me estende o seu único braço,
o que por mim ora e me faz orar,
o que me faz ter saudades
do inferno, da pestilência invita
que carreguei rente à pele,
e da pureza que descobri dentro dela.


Je ne suis pas un autre,
eu sou o sorriso do Hassan.






















Pedro e Hassan (caseiro de uma propriedade rural) na província de Doukala.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Hoje há caracóis

Se a mão do ato fere a melancolia,
pensar nela apenas a enxota -
com graça, às vezes,
sem vitalidade, quase sempre.

 Creio que é por amor,
 e não por medo,
que aceito este sofrimento de agir tão levemente.

Creio na magia de Não Ser
e deserto trôpego das trincheiras,
como um profeta anónimo
que colhe de flor em flor
o microscópico pólen de curtos dias.

Visto-me de preto
para fenecer no firmamento.
E assim preparo discreto, ou mesmo nulo,
o caminho dos vindouros - sua esperança e alegria.

Ensaio com persistência
a ausência de palavras,
para que no altar da estreia
não me falte o silêncio.

Novos navegadores

O casco das naus roçando
a copa dos pinheiros
faz lembrar o índico vento.

Os esquálidos e rotos marinheiros
que descem o tronco do sobreiro,
parecem formigas a caminho
de um caroço de alperce.

A glória e ganância deslizando
na pena dos jograis
são remotas reminiscências de auspícios
saltando de capa em capa
na montra dos jornais.

E mesmo o astrolábio
medindo a medo o firmamento
foi inspirado quiçá
no relógio de cuco
de um pensionista grego.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Tartarugas

Para a Fatinha,

Somos  duas tartarugas antigas lentas
cruzando  a estranheza mundana dos supermercados,
dos medos, das exaltações casuais.

Somos duas tartarugas feias
perpetuando a história de um crime,
um mistério interminavelmente falado nos jornais,
duas sombras impossíveis numa noite de assombros.

Somos duas tartarugas
porque tínhamos de ser qualquer coisa de eterno
e fraco como um sábio velho

que viaja espectral sem destino certo.


A tua morte é o fim do mundo ?



Gostava que pensassem nisto.



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