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segunda-feira, 22 de junho de 2015

O trigo e o joio

Escuta as coisas  inaudíveis  do devir
Não antecipes a foice ao teu lento olhar
Não colhas as espigas antes do seu florir
Só no forno do tempo,  o pão há-de brotar






quarta-feira, 17 de junho de 2015

O caminho

O caminho é doloroso. São quarenta anos no deserto até à terra prometida. Quem perde a esperança e a fé definha no deserto. É preciso acreditar ainda que estrada seja longa e a vida se encurte a seu ritmo natural.

Foto de Sebastião Salgado 

terça-feira, 9 de junho de 2015

"Alegoria da caverna" de Platão

Ator olhando as sombras do espetáculo, enquanto espera o momento para entrar em cena (Foto de Jorge Couto)

Homo Viator

Não somos um templo de sacrifícios, mas um corpo transcendental tornado humano e depois universal. Não somos uma tábua de leis, mas uma consciência que se forma como um rio de palavras. Somos o Homo Viator - o homem sempre em viagem atrás do sonho de encontrar irmãos.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

A raiana e búfalo

Vem montar o búfalo que espera por ti junto do rio, raiana.
Ele vai levar-te a ver as doidas terras de Espanha
Onde comprarás um chapéu azul e um casaco estampado de junquilhos brancos.
Lento, ele atravessará os morros barrentos, mas perfumados de alecrim e rosmaninho
E sobre o seu tosco lombo, os teus pés de princesa , vestindo chinelos de seda cor de carmesim,
Roçarão as ervas do caminho refrescadas pelas brisa  que cai das asas das borboletas.

Vem ao encontro da besta que te faz poemas patetas, como todos os poemas, enfim.
Ele vai contar-te histórias e mais histórias até que a noite chegue em seu manto estampado de galáxias.

Vem, raiana, vem.
Não ouves ? Já tocam os sinos da aldeia, anunciando aos pássaros a nossa boda bestial
E pela rua do forno vem o senhor padre seguido de um bando de andorinhas que sabem cantar em latim
Mais atrás mulheres dos campos rufando os seus adufes anti-castelhanos
E no fim da procissão um cão, irmão dos ciganos, que ladra porque sim.

Vem, raiana, vem
Antes que seja tarde,
antes que o rio cresça, os junquilhos murchem, as borboletas morram, as andorinhas migrem
e o cão dos ciganos morra de esgana atrás da última oliveira da devesa.

O búfalo espera por ti,
E mesmo que não venhas, diz-lhe que sim, raiana, ele precisa de ver a esperança
No fundo dos teus olhos verde-esmeralda e sobre a tua pele branca e lisa de marfim.

Raquel

Depois de caminhar vinte anos longe do teatro, voltei a ele como o pastor Jacob que amava Raquel no soneto de Camões:




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!



[Luís Vaz de Camões]

quarta-feira, 3 de junho de 2015

a propósito da espiritualidade

O homem da segunda fila  perguntou: “Quando mataram Deus para criar o Super-Homem Nietcheziano, não começámos todos a ficar egocêntricos ? Não seria Deus o que nos reunia a todos ?  E o Espírito Santo, esse terceiro elemento que nos torna irmão do outro, o que ganhámos em  torná-lo omisso no nosso pensamento ?”

O escritor com oitenta anos respondeu: “Não devemos perder a espiritualidade. Isso é fulcral. Mas há um conjunto de regras que tentam instrumentalizar politicamente essa necessidade com as quais eu não concordo. Quem me obriga a seguir regras, se quero apenas encontrar Deus ? Respondi à sua pergunta?”


O homem da segunda fila respondeu: ”Muito obrigado, senhor escritor. Claro que sim.”. 

Contudo ficou a pensar: Como é possível exercer a espiritualidade sem religião ? Não será demasiado insolente da parte de um indivíduo descartar um culto que se renova, uma instituição que se adapta e dissemina, ao longo dos séculos um caminho para o transcendente ? Certamente, que o escritor teria também morto Deus e nunca mais o encontrara. Nem sequer o seu corpo morto debaixo de alguma memória, sentimento ou aflição.


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