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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Civilização Ramsay

Ontem televisionei, por conselho de um amigo e para lhe fazer companhia, os “Desgostos de Ramsay”.

Para além de ser uma série de entretimento que mistura gestão de restaurantes, culinária e uma pitada da ficção documental tão na moda, tinha a meu ver uma mensagem subliminar interessante: Chegava um louraço de olhos azuis, ao que dizem britânico, a um restaurante grego, em Nova Iorque, onde tudo corria mal. A organização, a confecção dos pratos, o higiene e as relações humanas.

 Ramsay com a sua incrível genialidade, endurece o discurso, reorganiza, aconselha aquela genta do sul tão medíocre. Mais tarde, fala com a filha que lhe confessa que os pais não mereciam que os negócios lhe corressem tão mal porque trabalhavam 15 horas por dia, 7 dias por semana, há 30 anos.

Eu penso que foi aqui que começou o busílis do restaurante, colocar gente sensata e generosa do Sul a viver numa sociedade materialista e liberal, onde ganhar dinheiro parece ser um desígnio mais importante que a própria vida.


Fuck you, Ramsay. (Et vive la Grèce!)


terça-feira, 5 de maio de 2015

Binómio do ter e usufruir

Quando mais temos, menos usufruímos. O tempo que passamos a trabalhar para adquirir o direito de propriedade, deixa-nos sem tempo para usufruir dos bens adquiridos, ou de outros que são por natureza gratuítos. Devíamos assim recorrer mais à partilha e adequar as nossas leis de trabalho para que as variáveis deste binómio se equilibrassem de forma a facultar-nos mais tempo livre e humanidade.

Charlot em "Tempos modernos"

domingo, 3 de maio de 2015

Despedida de Salvaterra do Extremo

Dizem que segues fantasias e ilusões, mas não.
É mesmo o calor na carne e o mel das palavras
que te fazem aproximar do lume.
E por ali ficas sentado ao borralho,
aceitando a morte como coisa autêntica.

Que diferença há entre ti e a papoila
que perde, folha a folha, o vermelho
na fulgurante migração do inverno ?

Não partiste também tu,
ó inábil poeta,
num bando de andorinhas
à procura das searas ricas ?

Cala-te então agora
e escuta a sagração do tempo
através do canto sincopado  do cuco,
embalado pelo chocalho das ovelhas.

Já começa a fazer-se tarde.
Embala os poemas e parte
pelo rio abaixo
a caminho do ocidente.

A manhã espera-te
do outro lado da noite,
onde aguardarás a madrugada
num redil de gado urbanizado.

Mas enquanto não te toma o esquecimento,
esse estado gasoso que precede a saudade,
inspira o segundo, o ponto final, o virar da página,
como gesto eterno ou eternamente repetido.



quinta-feira, 30 de abril de 2015

Amanhã

Amanhã acordarei no céu, sobre uma cama simples, ornada com andorinhas e pardais.

Amanhã o dia terá nuvens a correrem para o infinito e mil e muitas horas trazidas até à porta por ovelhas azuis.

Amanhã voarei atrás das borboletas até ao templo dos grifos e conversarei com azinheiras, granitos e raposas.

Amanhã vestir-me-ei de rosmaninho e lavanda e sairei bailando agarrado aos perfumes que me levam para Espanha.

Amanhã hablarei com cabalos e galgos e darei os bons dias a garbosos ou esfomeados ciganos.

Amanhã há esperança e burros.

Amanhã estou em Salvaterra do Extremo.


domingo, 19 de abril de 2015

abril

a peste grassa
entre os mais ínfimos
outeiros da cidade
enquanto um velho mendigo
aguarda
a chegada sempre segura
da  primavera

há um lamento tímido
nas conversas dos
agrilhoados ao porão da barca
que se afunda, onde
uma pomba sonora
prepara já o grito
de aleluia

a tudo isto assistem
poetas sentados
que entendem
mas não traduzem
para a linguagem dos vivos
as nuvens negras
que assomam por
detrás das crateras

entre a relva semicortada
onde pastam, como arlequins,
pequenos estorninhos danados,
aflora
tímida e inesperada
 a cidade do futuro

saúdem-se os antigos reis
e os burgueses (todos nós) por cumprir
o cheiro dos corpos apesar de tudo
felizes
chama-se abril

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"Persianas" de Miguel-Manso


Ainda cheira a tipografia. Chama-se "Persianas" e escreveu-o Miguel Manso. Ele que é uma identidade única e valorosa na nova poesia portuguesa. "Persianas" passou a fazer parte da coleção de poesia da "Tinta da China", dirigida pelo Pedro Mexia. Bem haja quem ainda aposta em editar poesia. Afinal somos ou não somos uma nação de poetas ?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O prenúncio

Sereno, o ator perscruta um tempo diferente, um tempo fantástico. Ele vai partir e regressar da viagem, duas horas depois. Entretanto, escuta, escuta-se e sobem as cortinas. Os sonhos materializam-se (E às vezes a plateia dorme. Mais uma razão que é de sonho que falamos.). O ator completa o homem por debaixo da máscara e sobretudo brinca ao "faz-de-conta" imbuído na santa nostalgia da sua infância.

Foto de Duarte Belo na peça "A moura"

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