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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Dois apontamentos sobre o desespero

I.

As bombas caiam sobre Berlim. Os aliados avançavam e tomavam a cidade. No bunker, o Estado-Maior alemão dançava ao som do swing e bebia champagne francês. Uma bomba fez tremer a sala da festa. Por momentos, houve um lapso de realidade. Depois a festa continuou.

 II.

O frágil polvo , perseguido por uma garoupa enorme, viu um buraco quase perfeito. Finalmente estava seguro. Entrou lá para dentro. Esperou algumas horas, enquanto a garoupa rondava aquele abrigo quase perfeito. O peixe, impotente,  acabou por partir. O polvo sossegou e deixou-se ficar num meio sono, com um olho ensonado e o outro amedrontado. Quando a luz vinda do céu cresceu, sentiu que o abrigo emergia. Não entendeu logo o que se passava. Resolveu ficar na segurança do buraco que afinal era apenas uma armadilha de pesca. O pescador retirou-o com um gancho e colocou-o numa caixa de madeira. Três minutos depois, virou-lhe a cabeça do avesso e o polvo, enchendo os guelras de ar, gritou o silêncio todo do mar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Não me disfarço de poeta

Não me disfarço de poeta
A minha coragem é a resistência
Não me escondo atrás de máscara
Enquanto luto pela existência


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

retribuir e agradecer

"O poeta vive o seu tempo, mas não se reduz a ele. Partilha dores e alegrias, indigna-se, comove-se. Nada do que é humano lhe é alheio. Mas quer oferecer, pela palavra reconstruída no silêncio, um tempo mais humano que possa invadir, com a colaboração livre dos leitores, o nosso tempo. Tempo em que pouco se vislumbra a esperança, a mudança de mentalidades, a cordialidade, a solidariedade. Então o poeta recorda a beleza, não a que foi, mas a que é: nas maravilhas da natureza e do coração humano, aceso em compreensão. O poeta não quer um pedestal, quer humanidade, um dar de mãos autêntico, uma fala a todos acessível que desperte o desejo de fazer melhor porque se sente amado. Poeta: também para retribuir e agradecer."

Texto da Professora Maria José Dias Furtado

Virgem negra

à Marcela Costa (over)

vem, virgem negra,
caminhando sobre o espectro das águas
beijar o outro lado da manhã,
iluminar este medo sonâmbulo
que comigo se deita todas as noites

vem, lânguida e plácida,
como uma folha caída
que regressa à árvore despida
e respira outra vez

Alfredo Cunha - Níger

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

viajar

entro por ti adentro
vasculho as profundezas, as miudezas,
as tripas profundas, as memórias
calcinadas


viajo-te enfim




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Destino

Entrego-Te o destino que devido à sua complexidade, me inibo de gerir. E se tudo me tirares, seja feita a Tua vontade.

Eu entendo os que me pedem para agir. Mas como fazê-lo ? Eu agora só sei esperar. Pela inércia, por ter baixado as armas, peço desculpa ao Deus da Guerra. Porém, todos os que em mim ainda confiam, devem saber que os poetas tem a disfunção de inventar a realidade. É impossivel colocarem-se no lugar de um poeta carregando na cabeça a casa grande da razão. É impossível. Somos diferentes e sempre incompletos, ainda que os nossos olhos carreguem mil anos de infantis  emoções.

Não tenham pena dos poetas. Não tenham inveja deles. Tentem compreendê-los e dar-lhes o benefício da invenção.

Poetas perigosos

Só meto com poetas perigosos. Primeiro, Ruy Belo que me deixou nostálgico. Agora o Manoel de Barros que  está deixando-me criança.

 E, para finalizar, preciso vos confessar: “Basta de Fernando Pessoa requentado”, ainda que seja o mais admirável poeta que já li.
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