O passarinho, no cagaruto de um pinheiro bravo, piava aos sete ventos: "Não me venham falar em nome de todos os pássaros. Quando me vêm com aquele discurso 'Para bem da passarada', cheira-me logo a esturro. Juntar, no mesmo saco, falcões e pardais, gaivotas e avestruzes, soa-me a demagogia da grossa e mata-se logo a discussão política."
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O passarinho anarquista (IV)
Hoje quando me dirigia para o café, vi o passarinho anarquista muito engolfado e deprimido. Perguntei-lhe, cheio de compaixão, o que se passava. Ele confessou que era um anarquista de "estufa" e que quando surgiam as primeiras auroras fascistas, ficava logo enrascado.
Eu reconfortei-o, mas segredei para os meus botões: "És mesmo um passarinho".
Eu reconfortei-o, mas segredei para os meus botões: "És mesmo um passarinho".
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Afinal foi Nietzsche quem morreu
"Deus morreu!" - escreveu Nietzsche.
Mais tarde, Deus deliberou "Nietzsche morreu..." e acabou de vez com qualquer equivoco de cariz modernista.
Mais tarde, Deus deliberou "Nietzsche morreu..." e acabou de vez com qualquer equivoco de cariz modernista.
Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
Ruy Belo
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Ondulação
Caiu-me
uma pedra nua
no ócio do coração,
agitando sobre o sangue das aortas
uma ligeira ondulação de negócio.
domingo, 9 de novembro de 2014
"O apanhador de desperdícios" de Manoel de Barros
![]() |
| Manoel de Barros - Poeta brasileiro |
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Para além do destino
Dentro da velha Nau Catrineta
sobe rápido o marujo à vigia
sem monóculo nem sequer luneta
avista uma terra cheia de magia
"Terra à vista" sonoramente anuncia
a voz viril corre da proa ao convés
e toda a marinhagem já se alivia
de tantos meses sem terra nos pés
"Vejam mais longe!" diz o capitão
que sempre mais ambição tem
que sempre recusa qualquer emoção
"Vós vedes a terra, eu vejo o império"
perante tal valentia, da terra se esquecem
e seguem na Nau sem destino nem tédio
sobe rápido o marujo à vigia
sem monóculo nem sequer luneta
avista uma terra cheia de magia
"Terra à vista" sonoramente anuncia
a voz viril corre da proa ao convés
e toda a marinhagem já se alivia
de tantos meses sem terra nos pés
"Vejam mais longe!" diz o capitão
que sempre mais ambição tem
que sempre recusa qualquer emoção
"Vós vedes a terra, eu vejo o império"
perante tal valentia, da terra se esquecem
e seguem na Nau sem destino nem tédio
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