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domingo, 9 de novembro de 2014

Para além do destino

Dentro  da velha Nau Catrineta
sobe rápido o marujo à vigia
sem monóculo nem sequer luneta
avista uma terra cheia de magia

"Terra à vista" sonoramente anuncia
a voz viril  corre da proa ao convés
e toda a marinhagem já se alivia
de tantos meses sem terra nos pés

"Vejam mais longe!" diz o capitão
que sempre mais ambição  tem
que sempre recusa qualquer emoção

"Vós vedes a terra, eu vejo o império"
perante tal valentia, da terra se esquecem
e seguem na Nau sem destino nem tédio


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Negro

É preciso fazer  um luto
para sair da sombra que foi sol
e feneceu no fim da planície,
onde os anjos arrumaram os instrumentos dourados
e saíram pela porta dos fundos sem glória.
Calaram-se os cânticos
e a planície parece outra vez um painel de azulejos
sem movimento aparente.
Convoco os suicidas para dizer-lhes que não vou com eles:
Sylvia Plath, Antero e Manuel Laranjeira
peço-vos desculpa, mas gosto de rebolar na terra
ainda que seja comprovadamente um acto indigno

É urgente fazer um luto da primeira vida
e entrar de mansinho na segunda.

Au revoir, mes ennemis

terça-feira, 4 de novembro de 2014

primavera em novembro

sim
valeu a pena
ter chegado aqui

fechar os olhos
e por detrás das pálpebras
projectar o passado
só agora  feliz

no inverno
a primavera ainda floresce
mas apenas quando a noite cai

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Medeia



Medeia conseguiu três vezes que Jasão vencesse as duras provas que o pai dela engendrara para derrotá-lo. Ao ver-se vencido, o pai de Medeia tentou um golpe final, mas ainda assim Medeia e Jasão fugiram na Nau dos Argos com o irmão dela. Medeia para atrasar o navio do pai que os perseguia, desfez o seu irmão em pedaços lançando-os ao mar, porque sabia que o pai os iria recolher a todos e prestar-lhes no final uma homenagem fúnebre – o que permitiria o sucesso da sua fuga com Jasão. Pelo caminho, foram felizes e tiveram vários filhos. Porém, mais tarde, já em Corinto, o rei Creonte pediu a Jasão para casar com sua filha, Creúza,  Jasão, vitima de intriga, não resistiu ao pedido, informando Medeia que ela era uma simples mulher e não podia perder aquela oportunidade de se tornar um membro da família real. Medeia jurou vingar-se. Enviou um vestido coberto de joias e veneno que matou Creúza. Para além disso, matou os próprios filhos e levou os corpos consigo para que o pai, Jasão, não os pudesse sequer enterrar.

"Medeia matando os filhos" de Eugéne Delacroix

Carta aberta a um amigo

Amigo,

A propósito do que ela te disse:"Diz que me acha «duro» (muito desiludido, bastante esquivo, um pouco cínico). Enquanto contamos o que nos aconteceu desde os tempos do colégio, é visível a sua decepção comigo, "  - penso que é tudo  imaginação sua ou talvez um ideal que lhe foi alimentado pelas máscaras de outros. Se assim não fosse, estarias a trair as estações do ano, o ciclo da vida, a deliberação dos deuses. O outono é sempre assim - contou-me o meu pai que lhe tinham contado outros amigos - e todos os adjectivos que podemos atribuir a essa estação são sempre redutores.

Também é normal que estejas cada vez mais duro. Não há outra forma de proteger a ternura pelo inverno adentro.


Bom outono,
Luís

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Agarrado pela vida

"Mas, para dizer a verdade, toda a minha vida tenho tentado ser uma pessoa bastante medíocre. Fiz o meu trabalho, procurei atingir os meus objectivos, cumprindo as minhas obrigações e esperei pelo velho quid pro quo. Aquilo que recebi, como é natural, foi um valente murro na cabeça. Acreditava que tinha estabelecido um acordo secreto com a vida para me livrar do pior. Uma ideia perfeitamente burguesa." - Werner Herzog extraído do Blogue Malparado

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Obediência felina




Por acaso, não estou absolutamente de acordo. Eles realmente não obedecem, mas fazem favores.
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