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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Confidência

Tenho  a alma ferida,
por uma pátria que não entendo,
por uma língua que não conheço,
por um desamor vadio que me espera nas esquinas
e me apunha-la sem dó.

E dito isto resta-me continuar
como quem finalmente compreende
porque é o fado a cantiga da nação.

Queria fazer a guerra, mas não sou capaz.
Queria dar gritos, mas a rouquidão tolhe-me a loucura.

Sim, sei que tenho amigos (graças a Deus!)
Mas eles passam em suas barcaças
e acenam-me e gritam longínquos: “Viva, amigo!”
E depois seguem o curso dos seus rios
tantas vezes de marés avessas aquelas que me levam.

A minha resistência é a poesia.
Mas tão leve ela é
quando irrompem as águas impenitentes da história

da minha e da tua história.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sempre às sextas-feiras


uma gota de silêncio
caiu dentro de um copo
cheio de dias de azáfama

e logo
outra gota transbordou
cheia de gatos grandes e distantes

bebia em tragos largos
e as pálpebras semicerraram
três milímetros antes de um sono
quase sexo

"Que fresco aquele sabor
intensamente neutro
e aberto!"

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Salmo do homícida

Quem me dá a arma ?
Quem oferece o peito à bala ?
Onde me escondo e de quem ?

"Não matarás", escreveste tu, Senhor, nas tábuas da velha lei.

Mas os outros são o inferno, Senhor.
Não cabem na palma da tua mão,
feita de terra-mel
para os que contigo decidiram viver,
feita de terra-fel
para os que por mim devem morrer.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Amadeo de Souza-Cardoso


"Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade"
Amadeo de Souza-Cardoso

"Retrato de médico" - 1916



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Outubro

Qualquer coisa de ouro velho e abstrato invade o ar através do lento vapor desta manhã de outubro. As gotas da chuva miudinha desfazem-se nas folhas dos arbustos mais rasteiros, tornando-as tristes e vivas como seres pensantes, quando se detêm diante de um tom magoado de luz.  Os pássaros prometem-nos que não há pressa. Entre eles, nunca a houve verdadeiramente. A primavera está outra vez demasiado longe do horizonte e as sementes preparam as suas camas de orvalho nas veias do húmus sobrevivente da última estação quente. O poema, omnipresente e impotente, escreve-se no voo curto e débil  das primeiras folhas caídas. Em cima dos lábios, cantilenas sombrias entreabrem  frestas no peito do mais distraído pastor de máquinas.  


terça-feira, 30 de setembro de 2014

à beira do lago

(Durante um almoço na esplanada do "espelho de água" - Parque Eduardo VII)

O sol espraia-se sob o lago municipal. Junto a ele - e por entre dois arbustos de semblante aromático - duas crianças brincam como se o o mundo delas coubesse em meia casca de noz.
Depois uma delas deita-se e deixa que o sol se divirta sobre a sua epiderme. Algo lhe chama atenção na superfície do lago e, tocando no espelho de água, produz uma serpente de ondas que agitam o coração do dia e por ai adiante, até ao limite do caos que apenas entendo com uma imprecisa emoção.

Dou o último gole na bica e regresso ao trabalho.


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