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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Escondida nas minhas mãos" de Leonard Cohen














Escondidos nas minhas mãos
os teus seios pequeninos
são o ventre às avessas de pardais
caídos que respiram ainda.

Quando te moves ouço
o ruído de asas que se fecham
e de asas que desistem.

Fico sem palavras
porque estás deitada a meu lado
porque as tuas pestanas são o esqueleto
de minúsculos frágeis animais.

Tenho medo do tempo
em que a tua boca
me considere um caçador.

Quando me chamas e tão perto
me dizes
que o teu corpo não é belo
quero ordenar
às bocas e aos olhos ocultos
das pedras da luz da água
que testemunhem contra ti.

Quero que te
entreguem
como de uma caixinha
o verso trémulo que é o teu rosto.

Quando me chamas e tão perto
me dizes
que o teu corpo não é belo
eu quero que o meu corpo e as minhas mãos
sejam lagos
onde tu olhes e rias.

Tradução de Pedro Mexia

terça-feira, 23 de setembro de 2014

a semente do silêncio

acocorada
diante do altar sempre incompleto do poema
uma palavra verde
amadurece no silêncio
e de súbito, por sortilégio, acontece
um novo sentido entre as raízes e o fruto





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O cão, o gato e o fotógrafo



Enquanto uns roem sem critério e alguns tiram fotografias "porque sim", outros tentam perceber qual o sentido de tudo isto. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Entardecer

Escorre a tarde
e cada gota  que cai
estremece a lentidão
da extrema luz
E os gatos espreitam-na
cautelosos
com  olhos emprestados
por um deus poente


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sobreviver

A mais fulgurante das lei naturais é a sobrevivência dos fracos, a que bastaria chamar  "sobrevivência" ou, no caso humano, a "sub-vivência".


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

som de ave

cada som de ave
amadurece e alarga-se
pela cadeia de átomos desta manhã
e junto à orelha
suplica-me coisas do último verão


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mónica e o desejo

É verdade que foi uma descoberta serôdia aquela que fiz através dos canais-cabo da TV Cine. O que descobri foram alguns filmes do realizador sueco Ingmar Bergman.
Este realizador que inicia a sua formação em Teatro, inspira-se nele quando transporta para a sétima arte a beleza dos planos, o trabalho de luzes, a força das personagens (muito bem definidas, aliás.) e um conjunto de temáticas muitos especiais que me parecem devidas ao facto do seu pai ter sido pastor da igreja protestante.

Ontem, televisionei "Mónica e o desejo"(1953). A personagem que intitula o filme entre e sai do filme como um leitmotiv que arrasta atrás de si  o sentimento tão humano do desejo. O desejo está tão fortemente concentrado naquela personagem e a sua habilidade para alcançar o objeto desejado é tão tosco que arriscaria a chamar a este filme "A Madame Bovary, segundo Ingmar Bergman".

Mónica - ao contrário do seu companheiro que estuda engenharia para construir o devir - surge sempre incomodada e inconformada com a realidade, o que a leva a uma constante condição de nómada. Entra na narrativa e sai igual, como se a sua insatisfação fosse um indomável monstro que vive sem coito pela vida fora.

Atriz Harriet Andersson

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