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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Realidade Touchscreen

O carro parou no semáforo. A paisagem lá fora era a habitual.  A criança dentro do automóvel varreu, com o dedo indicador,  o vidro lateral do veículo para que este avançasse.  Era assim que mudava as imagens no tablet do pai. Era daquela forma que o presente se tornava passado. Por  coincidência, ou talvez não,  o sinal ficou verde e o automóvel avançou para o nivel seguinte daquele jogo mais monótono do que aqueles que ele jogava no tablet do pai.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O amor é um filho da puta

Há linhas que se quebram, triângulos de vários ângulos que se criam, vértices que não se tocam, linhas paralelas ou então concorrentes, mas que apenas se cruzam tarde de mais. Esta é a geometria do amor. Os corpos não se fundem, os olhos não se tornam unos e os corpos tocam-se por instantes demasiado curtos quando vistos de longe, da eternidade. O amor tem ainda um  lado animal, instintivo e cínico que apela apenas à sobrevivência dos espécimes.

É fácil falar de amor quando não estamos apaixonados, quando não fomos abandonados no caminho. Caso contrário, também falamos, escrevemos, cantamos, mas ficamos a sós com as nossas palavras e os nossos vazios temporiamente por preencher. Nestes espaços, ecoam vozes e raivas e silêncios onde soam...sei lá...violencelos ou campainhas incómodas . Mas tu vais  levantar-te, camarada. Levantamos-nos sempre e caminhamos discretamente diante do olho semiaberto da fera que descansa e nos vigia.

Falar de amor é uma seca, um aborrecido lugar comum. O amor é um filme que já conhecemos o fim ou um jogo de futebol em diferido do qual  já sabemos que o nosso clube perdeu.  O amor conquista tudo, todos espaços e segundos. Quando ele parte com o seu espólio de ouro e prata, pouco nos resta. Ficamos entregues a uma nova e estranha solidão. E é preciso (re)amar-nos de novo para suportarmos essa senhora tão intima e imprevista como uma sombra.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A mulher-vértice

Este fotógrafo chama-se Alfredo Cunha. É fotojornalista e destacou-se pelo seu trabalho no dia 25 de abril de 1974. Atualmente vive em Fafe. Gosto muito do seu trabalho - um pouco na esfera de Sebastião Salgado.

Deixo aqui uma foto dele. Chamei-lhe "A mulher-vértice".


Foto de Alfredo Cunha

Sylvia Plath morreu há 51 anos

Fez ontem 51 anos que faleceu a mais triste poetisa do mundo. Um minuto de poesia por ela:

The present is forever, and forever is always shifting, flowing, melting. This second is life. And when it is gone it is dead.
Sylvia Plath (outubro 27, 1932 – fevereiro 11, 1963) in The Unabridged Journals of Sylvia Plath

Tradução: "O presente é para sempre, e para sempre continua  mudando, fluindo, derretendo. Este segundo é a vida. E quando ele se foi, fica morto." 


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Poema #1

Sou a doença e sou onde me dói.
Sou  o que compra a bala do seu fuzilamento.
E entra pela noite adentro
jurando ver o sol a raiar.
Sou o que em tudo o que disse, nada disse,
julgando ser ouvido
do fundo de um poço sem boca,
como uma nascente que nasceu seca,
como um floco de neve que se liquefez no ar
e quando chegou à terra já era água suja.
Sou aquele que  se nega ao afirmar.
O que nasceu para aquilo,
mas apenas fez isto.
Sou filho de Maria e José,
mas quando nasci,
já todos haviam esquecido Jesus verdadeiramente.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Para que serve a arte ?

"Arte persuade-nos a afastar da mecânica, para nos aproximarmos do milagre. A chamada inutilidade da arte capacita-a  do seu poder transformador. A arte não é parte da máquina. Ela pede-nos para pensar de forma diferente, ver de maneira diferente, ouvir de forma diferente e, finalmente, a agir de forma diferente – onde reside afinal a força moral. Ruskin estava certo, embora pelas razões erradas, quando ele falou sobre a arte como uma força moral. A arte não é o  bom comportamento -Quando foi a última vez  que viu um milagre  comportar-se bem? A arte torna-nos pessoas melhores, porque eleva-nos no sentido da nossa plena humanidade, e a humanidade é, ou deveria ser, o oposto polar do meramente mecânico. Nós não fazemos parte da máquina, mas nos esquecemos disso. A arte é a memória - o que é bem diferente de história. A arte pede que nos lembremos de quem somos, e, geralmente essa pergunta surge como uma provocação - é por isso que ela quebra as regras e os tabus, e ao mesmo tempo é uma força moral."

                                    De Jeanette Winterson || Tradução livre de Luís Palma Gomes 

A escritora Jeanette Winterson



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