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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Para que serve a arte ?

"Arte persuade-nos a afastar da mecânica, para nos aproximarmos do milagre. A chamada inutilidade da arte capacita-a  do seu poder transformador. A arte não é parte da máquina. Ela pede-nos para pensar de forma diferente, ver de maneira diferente, ouvir de forma diferente e, finalmente, a agir de forma diferente – onde reside afinal a força moral. Ruskin estava certo, embora pelas razões erradas, quando ele falou sobre a arte como uma força moral. A arte não é o  bom comportamento -Quando foi a última vez  que viu um milagre  comportar-se bem? A arte torna-nos pessoas melhores, porque eleva-nos no sentido da nossa plena humanidade, e a humanidade é, ou deveria ser, o oposto polar do meramente mecânico. Nós não fazemos parte da máquina, mas nos esquecemos disso. A arte é a memória - o que é bem diferente de história. A arte pede que nos lembremos de quem somos, e, geralmente essa pergunta surge como uma provocação - é por isso que ela quebra as regras e os tabus, e ao mesmo tempo é uma força moral."

                                    De Jeanette Winterson || Tradução livre de Luís Palma Gomes 

A escritora Jeanette Winterson



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Quietude e movimento

"The Lost Jockey",  de René Magritte em 1948

João Lagarto trouxe o Beckett ao Auditório de Alfornelos



Este fim-de-semana tive o privilégio de assistir ao espetáculo “Começar a acabar” de Samuel  Beckett numa leitura/compilação de vários extratos de peças do dramaturgo irlandês. A autoria do espetáculo é de João Lagarto que com este espetáculo alcançou um globo de ouro para a melhor interpretação em 2006. O homem de teatro – prefiro chamar-lhe assim – João lagarto efetuou ainda, no dia seguinte,  uma palestra dedicada ao making-off do espetáculo, com enquadramento biográfico e artístico, aberto a todos.

A minha avaliação não podia ser a melhor. O monólogo com o qual foram presenteados os espetadores que se deslocaram ao Auditório de Alfornelos – a casa do Teatro Passagem de Nível – foi de uma qualidade extrema, ora ao nível da interpretação, ora ao nível da coletânea de textos apresentados. O ator pouco se movimenta, cumprindo o minimalismo Beckettiano, mas quando faz cria espaços dramatúrgicos e significados fortes. O estudo e investigação que João Lagarto efetuou para a construção deste espetáculo é a prova que o trabalho compensa.  A sua interpretação é muito boa – diria quiçá o papel da sua vida ou do fim de vida para qualquer mortal.

A peça versa os últimos dia de vida de um mendigo típico das ruas Dublin, que durante hora e meia efetua o seu “relatório e  contas” com a vida. A personagem precisa finalmente de alguém para comunicar e fá-lo com o público de uma forma forte e convincente. Mais tarde, na sua palestra de domingo, João Lagarto explica-nos esta abordagem pós-modernista onde o público faz como nunca parte da obra. Ou seja a sua interpretação complementa a visão do autor, como nos processos de abstração.


Enfim em nome de todos que gostam de teatro, quero agradecer ao João Lagarto e ao Teatro Passagem de Nível este momento que me tornou mais rico e esclarecido.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Abutres ou gaivotas ?

Do terraço, vêem-se algumas colinas da cidade. Sobre a mais alta, ergue-se Palácio da Justiça. Sobre ela pairavam aves grandes e estranhas, mas indistintas. Na minha imaginação eram abutres que aguardavam os restos mortais dos condenados. Talvez não. Talvez fossem apenas gaivotas, aguardando ao abrigo do guardião institucional que o mau tempo passe, para voltarem ao lindo Tejo que as espera ansioso.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Hércules e os mortais

"Os doze trabalhos de Hércules eram ninharias comparados com os que vizinhos meus têm empreendido, porque aqueles eram apenas doze e tiveram um fim, ao passo que eu nunca pude ver esses homens matarem ou capturarem monstro algum, nem  sequer acabarem qualquer trabalho. Além disso não têm um amigo como Iolas para queimar com ferro em brasa a raiz da cabeça da Hydra; pelo contrário, mal uma cabeça é esmagada, duas brotam." - extraído de "Walden ou a vida nos bosques"

Henry David Thoreau - Sec. XIX

Alto relevo romano (séc. III AD), representando os 12 trabalhos de Hércules

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

profecia calada

acordo
apenas para dizer
a palavra que não pode ser escutada
a palavra que sai da boca dos anjos de Rilke
e que tudo estreme-se e  tudo queima
tal a sua pureza e verdade

 por isso e só por isso
continuo o silêncio que vem das montanhas longínquas
ampliando-o como um ruído cego e sem boca
 - incapaz apenas
de calar a canção do  pássaro
que, pousado na  árvore, me canta e escuta
tão humanamente




segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Henry David Thoreau, outra vez

"Sem correr riscos, podemos ser mais confiantes, abrindo mão de tanta atenção para connosco e aplicando-a alhures. A natureza está bem ajustada, quer à nossa fraqueza, quer à nossa força. A ansiedade e tensão de alguns é quase uma incurável doença" - H.D.Thoreau em "Walden ou a vida nos bosques" - séc.XIX

A casa que Thoreau construiu para viver dois anos e dois meses no bosque
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